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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Natércia

Hoje Natércia deu seu último mergulho naquele mar,pela última vez pisou a areia branquinha e fina que teimava em se meter entre os seus dedos.Deitou-se na praia.Ficou olhando as nuvens de dentro do seu chapéu vazado.Uma proteção e um esconderijo.
Em poucos dias mudou-se pro interior do estado.Pessoas diferentes,hábitos também.Sotaques carregados,acabou viciando naquilo rapidinho;falava arrastado agora.As roupas eram mais simples,os cabelos menos emperiquitados. Não estava menos bonita.Era apenas mais natural.Aquele ar doce e quente da nova terra penetrou todos os seus poros e ondeava levemente a barra do vestido verde que usava aquela tarde.
-Natércia!Alguém chamava lá longe...Tão distante.Quase inaudível.
Chamavam-na repetidas vezes.O som daquela voz era profundo e trazia lembranças comoventes.
Virou-se.Estava tão diferente.Quando nossos olhos se cruzaram os mortos ressuscitaram no cemitério,e a louça antiga voltou a ser bela.
-Natércia!Não cansava de chamar-me a todo instante.Havia me seguido até ali.
Mirou-me  muito seriamente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Pecado Original


Apanhou a flor, apanhou o amor que ele lhe dera gota por gota, era pouco. Gostava de banhar-se em cascatas de cachoeiras grandiosas, beijada e amada por peixes, por todos os deuses. Espiada pela Lua, adorada pelos Sóis. Era o canto mais suave e mais impetuoso da natureza: uma mulher, a minha mulher, artigo definido e possuído por mim.
Morreria pra satisfazer cada um dos seus caprichos. Tudo bem não sou sagitariano, nem tão pouco sou regido por qualquer signo zodiacal.
Chegarão amanhã minha arqueóloga e seu “pupilo fóssil’’.
Desembarcaram ambos, trazia-o preso a sua mão pequenina e macia aquilo que alguns ousariam chamar de mão.
-Meu Deus!Será que precisava tanto empenho?
-É meu trabalho.
-Trazê-lo pra morar conosco faz parte do seu trabalho também?
Deu de ombros deixando-o resmungar sozinho, observando aquela cena dantesca, era um delírio só poderia ser; alguma ingestão acidental talvez... O que poderia tê-lo envenenado?
-Não seja criança e trate de acordar desses seus devaneios. Como você fantasia; sabe qualquer um diria que sou sua mãe. Comporte-se como marido hein?!
-Essa é boa!E o que tenho sido então senão um pra você?
Já estava correndo atrás dos dois; a esposa e o ilustre acompanhante andavam rápido em demasia.
Gostaria de descrevê-lo. Não encontro termos apropriados em linguagem humana. Direi tão somente que é um resquício da primeira leva hominal, se é que é um termo apropriado.
Havia encontrado o Adão da ciência; seria altamente condecorada, teria as maiores honrarias e privilégios da Terra; seu séquito de seguidores seria ainda maior. Viu-se cortejada pelo Sol em todo esplendor e arrogância, eram iguais.
Aquele ser assustado e assustador observava-a trocar as vestes intrigado. Estava tonto da viagem, a memória razoavelmente afetada pelo tempo. Mas sabia plenamente com que tipo de gente estava lidando ,afinal, eram da mesma espécie, graças a esforços de seres como eles tinham progredido e civilizado. O raciocínio era parco, mas o instinto não o trairia.
O Novo velho homem passava por testes clínicos periodicamente, testes de reflexo, acuidade visual, e primordialmente todos as investigações relativas a mente e sua funcionalidade;foi confirmado que o crânio humano expandira-se com o passar dos séculos, entre outras coisas.Eram minuciosos e frios,extremamente detalhistas em tudo quanto pudesse servi-los;tinham em seu poder um espécime único, a coisa mais surpreendente da natureza humana sobre todos os aspectos,questionava-se sua moralidade,seus modos,sua existência paralela ;embora mostrasse claros resquícios de inteligência parecia alheio ao circundante,era primitivo.
-Eureca!Eureca!O eco das próprias palavras ainda fazia ruídos dentro de si.
-O que descobriu?
-Parece um homem congelado, e digo mais: aparentemente em ótimo estado de conservação, mirava-o com interesse, era repugnante, mas tinha olhos muito vivos pra alguém que estivesse congelado há tanto tempo, aquilo atraiu sua atenção, seu desejo de desvendá-lo. Quando se puseram a desvencilhar o objeto em estudo do gelo, ele verdadeiramente eclodiu,nasceu, nasceu da forma mais inusitada. Não pronunciava palavras a principio entendíveis, emitia somente sons guturais, aos poucos a comunicação foi se estabelecendo entre ele e membros da equipe, principalmente com sua ilustre descobridora; uma mulher diabolicamente divina, alguns suprimiriam o artigo divino...
Ao financiador da expedição:
-Quanto me daria por um “ser” como esse?
-Ah!Querida pense no bem da comunidade cientifica.
Um ranger leve na porcelana dos dentes quase os trincou por completo, um jeito nos cabelos, levanta se aproximando dele.
-Precisarei de você meu amor.
-Como sempre,não é?
-Tem valido a pena, ou não?!   
-Não sei.
-Pois te digo!Depois que assumi o comando das expedições que financia, seus lucros empresariais são cada vez mais vultosos, seu dinheiro é aliado da minha competência.
-Sempre modesta!Minha parceira perfeita, em tudo!
-Acho que eu não seria tão categórica quanto tu és nessas afirmações...
-Remorsos das explorações clandestinas?
-Jamais, falava apenas doutras coisas. Agora preciso ir meu embarque é pra logo, ou estou lá ou fico aqui nesses confins.
-Fique comigo!
-Por que confundir sempre as coisas?
-Ofendida Madona?
-Sim ,por certo. Deixe-me por obséquio.
-Achei que até alguns instantes era seu amor, como sois frívola.
-Tenho senso de oportunidade só isso.
-Quando enfim dormirás nos meus braços?
-Adeus!Espero sua contribuição na conta de sempre, afinal o que nos une são apenas negócios, escusos, mas ainda assim negócios.
Viu as harmonias do talhe se esvaindo por entre as espirais das escadas, adorava contemplá-la nesse estado de mulher ferida e distante,um dia venceria aquele orgulho.
Em casa...
-E então Carolina como foi o seu dia com o nosso hóspede?Depositou em seus lábios róseos o  beijo costumeiro: -Amo você querida!
Estava alheia aquela afetuosidade, lembrava-se doutras coisas mais importantes, não poderia, não agora, prescindir de tino e agilidade de movimentos, uma raposa perfeita, ardente de desejos não consumados e inconfessáveis.
Olhou-o com ternura, tinha pena dele, tão apaixonado; seguiria até o fim naquela farsa, fingiria amor e “ais” repassados de saudade quando tinha apenas pena. Pena de quê?Não sabia ao certo, talvez fosse algum grito de consciência rouca. O fato era: um marido fazia-se necessário, sua postura de mulher honesta, bem casada, reputação inatacável por todos os aspectos precisaria ser mantida a qualquer custo e nada melhor do que um casamento como aquele com um homem de virtudes inquestionáveis; suas lavagens de dinheiro junto ao financiador jamais seriam descobertas. Quanto a amantes?Não teria estômago pra tanto, era preferível viver em castidade espiritual por que física já não era possível com um esposo tão devotado quanto o que possuía.
Olhos rasos d’água:
-Senti tantas saudades de ti querido o dia foi tedioso, sabes que ainda não tenho feito muitos progressos com ele. Enlaçou o seu pescoço com carinho, sussurrou baixinho no ouvido dele “estou cansada, poderia me levar pra cama?”, e aquilo era a senha pra tudo quanto ela sonhara conseguir dele, sua fragilidade encantava-o embora não fosse genuína.
Ele era puro e bom, via sua deusa, sua senhora, ou dona como queira, quiçá mestra; esse sim é o termo mais apropriado, como uma sílfide, dotada de qualidades admiráveis,adorava dedicar-lhe predicativos sempre ostentados com verdadeiro frenesi por sua rainha.Comandava cada um dos súditos de forma especial,única, como ela mesma.
“Todos querem sentir-se amados, indispensáveis ,e é importante cultivar neles a vaidade, sufocar o que poderia afastá-los de sua nefasta influência.” Seria eu tão má assim?Quisera somente o meu quinhão de felicidade terrena. Não matara, não causara intrigas, respeitava pai e mãe, guardava o sábado indo as missas com freqüência usual, não cobiçava o homem alheio,enfim ,seguia razoavelmente bem o decálogo:seu mais alto pecado era roubar.Fazia-o sem muitos escrúpulos.Gostava do poder e dos seus meandros, utilizava-o pra chegar onde queria,não tinha lá muitos limites sua ambição.Venderia os pais?Os dela não, mas os seus sim leitor, portanto cuidado!Mantenha distância calculada.
Dormia com a cabeça repousada no seu seio alvo e palpitante. Gostava de cismar sobre aquele homem e sobre si mesma. Dentro do seu peito havia um casebre que destinara a ele, era a porção de amor que lhe cabia, sim, naquele instante ao vê-lo dormir consigo tão entregue e vulnerável, amou-o deveras, não tanto quanto ele merecia, mas já era algo: um casebre. Contudo isso não foi suficiente pra impedi-la de leiloar um ser humano em praça pública, tal qual escravo; o ser mais antigo da humanidade encontra-se exposto nas galerias mais famosas do mundo, arrebatado por incalculável fortuna: ganhara-o de presente de um admirador secreto,possuía título de propriedade sobre o animal, podia vendê-lo ou explorá-lo quanto quisesse.Seu nome permaneceu incógnito,jamais pronunciado em transações, o esposo esse um coitado, um infeliz, jamais suspeitaria de tal primor social e conjugal.
Desfilava seu amor próprio numa das galerias mais famosas do mundo. Agredida e morta pelo selvagem; tinha afinal o orgulho vencido, não por um homem como o de outrora, porém por um animal tão primitivo quanto ela. A eterna revolta da criatura!
Seus instintos de aço haviam sido preservados sobre uma espessa camada de gelo por séculos, milênios a fio, impossível o Adão histórico ser enganado por uma Eva qualquer, tudo nela exalava os mais torpes sentimentos, o seu parco amor medrava, sufocava-se no lamaçal que era sua alma.
O perigoso ser sofreu um processo de recongelamento, a misérrima criatura viu na arqueóloga os instintos mais baixos, compartilhava todos eles numa época tão remota, tão presente e vanguardista.
Um dia o homem adâmico abriu as pupilas ressecadas, diante de si havia uma rosa desabrochando em pétalas douradas, douradas de amor.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Era dos Loucos


Era meu dia de folga.E dessa vez aproveitaria o dia de uma maneira talvez inusitada e estranha pra muitos.
Ainda pela manhã tomei a condução que ia pra Tamarineira.A viagem era longa,o destino era bem distante de onde eu morava porém estava decidido.Pra quem não conhece, a Tamarineira é um bairro do Recife,no qual funciona um hospital psiquiátrico.E foi lá que decidi passar minha folga.

Adentrei pela primeira vez aquele hospital.Não sem antes observar as pessoas que circulavam por ali.Alguns vinham tristes,é mesmo bem triste ter um parente ou amigo nessa situação.Outros por sua vez vinham alegres,inebriados de loucura...Talvez a mais doce forma de lucidez.

Estava circulando em uma das alas quando ouvi gritos:
-Socorro!Vão me matar.

Eu sei isso é um hospital de loucos,muitos deliram ali,mas e se algum deles estivesse em perigo ou tomando choques elétricos como no século passado ou retrasado se fazia com os doidos?
Precisava "salvar a vítima".Ao chegar lá me deparei com uma mulher muito jovem,quase menina,não revirava os olhos como você pode tentar supor,muito pelo contrário...Seus olhos pareciam muito lúcidos,brilhavam de contentamento apesar dos gritos anteriores.

Sim eram dela os gritos.Naquele momento ela era a única no corredor.
Fiquei um tempo olhando-a.Era tão jovem,um pouco bonita,dizendo melhor:era muito bonita.O que fazia ali?

-Ora você pensa que só os feios enloquecem?Disse uma voz vindo de dentro de mim.

Fiquei atordoado.Será que eu também  estava enlouquecendo?Com tantos lugares pra ir num dia de folga e eu havia resolvido ir a um hospício?Era a caridade que me movia.Estava em dívida com Deus e com os pobres.
-Não seria curiosidade?Disse novamente a voz.
Balancei a cabeça pra espantar os pensamentos,sim aquilo deveria ser um pensamento,eu estava pensando alto só isso.Repeti várias vezes tentando me convencer.
-Você também está louco?Disse enfim a mocinha me vendo naquele estado de estranheza.
-Como assim?Eu não sou louco.A doida aqui é você.
-Eu sei.Você também não parece muito bem...
-Eu?Eu estou ótimo.
Não ficaria ali mais nenhum minuto.Corri pelos corredores,nem sei quanto corri nem pra onde corria dentro do hospital;a louca vinha atrás de mim junto com médicos e enfermeiros que por certo me tratavam como louco.
Veja bem leitor,preste bem atenção:
-EU NÃO SOU LOUCO.
Você me ouviu não ouviu?
Por sorte consegui escapar deles.Passei um sufoco,mas consegui.

Agora estava entre vários loucos.Conversavam muito alto.Discutiam política.Fiquei observando sem me aproximar.
-Jorge, você está errado.Dizia um deles,o mais alto.
-Como errado?Ora,na política meu caro,vale de um tudo.
-Como de um tudo?Onde ficam os valores?E o povo nisso onde fica?Interferiu um terceiro homem.
-Que errado nada.Eu mesmo quando era prefeito da minha cidade roubava,roubava mesmo,comprava votos também.Dizia o Jorge.
-É contra lei.Gritou Maria.É contra a lei de Deus e dos homens.
-Que Deus que nada!Gritou Leôncio.O mais alterado deles.Eu sou Deus.Eu faço as leis.
-Você Deus?Se você é Deus pois que eu sou Maria Madalena.Somos todos loucos.Você não vê?Isso é um hospício.
Ouvindo isso começaram a brigar entre si.
-Calma pessoal.Resolvi entrar no meio antes que algo sério acontecesse ali.
-E, você quem é?
-Ora não me reconhecem?Sou Deus.(Disse tentando invocar um ser de autoridade superior pra apaziguá-los)
-Você é um falso profeta dizia Leôncio,o que acreditava ser o próprio Deus.
-Amigos,venho em paz.Pra que reine a paz entre vós.Eu vos disse: amem  uns aos outros.Não lembram?
Alguns ajoelharam diante de mim.Outros mais desconfiados me olhavam de lado,sem se intrometer na conversa que viríamos a ter de ali por diante.
-E, então como vão todos?Disse eu.
-Como vamos?Vamos bem.Disse Maria.
-Bem coisa nenhuma.Retrucou o Jorge.
-O que há?Questionei.
-Ora,essa história de "como vai" não pega bem.Quase todos mentem.Estamos todos sempre bem uns pros outros,como numa tentativa de afirmação pra si próprio de que tudo irá melhorar ou que já está tudo nos eixos.
Fiquei estupefato com a explicação.Ele estava certo.
-O senhor foi prefeito não é?Perguntei.
-Sim fui prefeito da Tamarineira.
-Não sabia que era uma cidade.Pensei ser apenas um bairro do Recife.
-Ora,Deus com o perdão da palavra:o senhor está doido?
-Mantenha o respeito filho.Dizendo isso me despedi de todos.Tinha a intenção de sair dali o mais rápido possível.
Num corredor específico do hospital havia uma porta meio aberta.Fiquei ali escutando.
-Doutor,vim visitar meu filho.Mas,não o encontro no hospital.
-Senhora,ele tentou fugir essa manhã estamos todos de prontidão no hospital.Não há como ele fugir.Ele usa roupas credenciadas do hospital.Nosso pessoal é extremamente especializado e bem treinado.
-Oh,doutor o Pedro Neiva está cada dia pior.
Nesse momento a ficha caiu pra mim.Adentrei a sala e me entreguei.Eu era o mais louco,o mais alucinado de todos eles.

*Isso é uma obra de ficção que de nenhuma forma visa ofender os pacientes portadores de distúrbios mentais.O texto é somente pra ilustrar que muitas vezes o mais lúcido de nós é o mais louco,e o contrário também pode ser aplicado.
**Se quiser saber um pouco mais sobre o VERDADEIRO hospital da Tamarineira acesse o link:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hospital_Ulysses_Pernambucano

domingo, 20 de novembro de 2011

Teorias da Conspiração



Estava atrasada. Cinco minutos, mas estava. Naquela manhã havia acordado bem cedo, nenhum incidente exceto a demora dentro do transporte público, uma vergonha; uma hora de seu bairro até o centro. Aquele automóvel estava em petição de miséria, uma porta só, janelas com ventilação apenas na parte superior, os veículos eram em número insuficiente pra atender a demanda populacional da cidade. Desceu do ônibus lotado com dificuldade. Era esperada com ansiedade por alguém. O centro estava cheio de gente, era véspera do feriado de dia dos pais, tentava em vão atravessar a avenida mais movimentada da cidade num dia como aquele.
E foram várias tentativas. Agora vai. Pensou ela, quando foi quase atropelada por uma bicicleta, eram mais de 30 mil naquele centro urbano, e estavam todas ali, as motos também. Parecia uma confraternização de veículos.
Impaciente roía as unhas. Sem ter o que fazer senão esperar o amenizar do trânsito ficou a olhar a vitrine da loja mais próxima:
-Que coisa é aquela ali? Apontou espantada.
-A imagem do caos.
As pessoas, animalizadas pela fome, policia em greve, saqueavam um supermercado.
-Não sabia que a policia estava em greve. Comentou com uma senhora ao lado que como ela assistia atônita aquela cena dantesca.
-Moça, você não sabe é de nada... Os jornais, os meios de comunicação em geral estão suprimindo as informações, passando "coordenadas erradas".
-Como assim?
-Você não vê? Essa história de comércio abeto até mais tarde em véspera de feriado, é pra omitir a greve da policia, veja se alguém sabia disso? Se alguém comentou? Eu sabia. Vim aqui conferir a tragédia, meu esposo é policial e me confidenciou tudo. Estão todos armando contra nós. Todos os que possuem poder, os pequenos, os grandes, só de poder que eles precisam, e só do poder se servem pra nos manipular... Isso tudo aqui é pra nos por uns contra os outros.
Estava tonta com aquilo. Os neurônios fervilhavam.
A mulher continuou:
-Hoje pela manhã ainda cedo, os agentes da prefeitura, os fiscais e guardas municipais invadiram as favelas, as casas, atearam fogo em tudo. Por isso essa confusão toda aqui.
Clara afastou-se daquela criatura. Não poderia ser verdade. Esfregou bem os olhos cansados daquela multidão toda e apenas viu dentro da loja pessoas comprando, outras vendendo. Não era o caos. Não ainda.
Do outro lado da avenida ele esperava. Foram tantas as palavras daquela senhora que nem lembrava mais dele, porém Cristiano estava ali, houvesse ou não uma teoria da conspiração, ele ali estava... O homem de sobrancelhas grossas, arqueadas, bem feitas, uma escultura sem termo, agastado pela demorava dela, ainda assim esperava. Atravessou a rua.
Juntos, ela e o homem foram embora, não sei pra onde, sei apenas que fugiram dos conspiradores.



sábado, 6 de agosto de 2011

Ser humano - Ser lobo

Havia traído a mim mesmo.Rasguei inteiramente as roupas.Estava nu.O homem é lobo do homem,triste do homem que confia noutro homem;estavam falando de mim ali.Acreditei durante anos na verdade,não no fato de não mentir pros outros,mas de ser fiel a si custe o que custar;falhei.Hoje falhei,não sei bem por que razão...Continuo com a intenção de errar,parece um caminho sem volta;uma chapeuzinho vermelho ou uma Alice que erraram o caminho,descobriram-se erradas e insistiram.Era e é prazeroso aquilo,um prazer enorme,infindável.Fechei os olhos e vi os dela ali,dançando diante de mim,uma dança suave,volátil.como ela mesma,prestes a se misturar ao ar a qualquer momento.
-Dança comigo?Era a voz dela fazendo eco dentro de mim,um eco eterno e amoroso.
-Meus pés de pato não sabem dançar.
-Tudo bem.
Fiquei ali contemplando-a;sempre tão exposta e vulnerável.
-Foge não.
-Mas quem disse que estou fugindo?
-Você sabe dançar,eu sei.
-Preciso ir.Até logo.Fica pra outra oportunidade.
Não gosto de falar de amor. E não estou pensando,muito menos escrevendo sobre ele.
Porém...A dança,o jeito que ela dançava,era um convite.
Diante daquele pensamento lembro de ter estacado no meio do caminho,como se houvesse uma pedra no meio do caminho,no meio do caminho existe uma pedra,e não havia.O que vi fui eu mesmo indo até ela,conduzindo-a da forma mais hábil e mais desconcertante até agora,pra mim ao menos.
Não percebi quando acabou.Estávamos exaustos,deitados no palco,sem plateia.Levantei de forma mecânica.Pra ela disse apenas que preferia pintura;porém e inegavelmente gostei de dançar.Isso não confessei nem a mim mesmo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O dia que nunca existiu

Acordou cedo. Os olhos estavam cansados dos preparativos da véspera, não a decepcionaria.
Tomou o café rapidamente, folheou os jornais com displicência.

-Olá. Você chegou cedo. Disse-lhe beijando-a de leve nos lábios.
-Assim você tira meu batom, um pouco menos de euforia nesses cumprimentos.
-Pra mulher da minha vida.
As mãos estavam trêmulas ao tocar o ramalhete que ele ofertara a si. As flores airosas envolviam-lhe a cintura, os lábios, toda ela; como ele faria sem hesitações; num dado momento recuou como que se estivesse sendo acuada por perigoso animal,olhou pra ele como se o visse pela primeira vez num show de horrores.
-O que tens Val?
-Acabou.
-Como assim acabou?Em pleno 12 de junho você só tem isso pra me dizer?
-Só. Não deu explicações, deixou as belas rosas na mesinha do restaurante,não voltariam a ver-se.
Olhei tudo aquilo atônito, até o momento não saberia dizer o que ou por que as coisas terminaram, pra mim estávamos começando, pra ela já era o último capitulo, daqueles de muita audiência; o público ali era imenso; engoli meu orgulho e sai de fininho, cabeça erguida como se nada tivesse acontecido e na verdade nada havia ocorrido, fui somente notificado de algo; como o fim de um contrato indesejado pra uma das partes.
Não chorei. Não gritei ou tentei dissuadi-la naquele momento nem posteriormente. Em casa ainda tonto com a situação havia uma ideia martelando dentro de mim:
-Esse dia não existe. Apague-o.
Primeiro passo foi ir até a lata de lixo da rua e jogar as flores fora, depois vieram os presentinhos, cartinhas, fotos, endereços, coisas compradas juntos, e uma listinha interminável disso ou aquilo que os casais insistem em acumular, mas que eu estava deixando pra trás ou melhor destruindo vestígios,todos eles.
Os últimos e decisivos passos foram rasgar o dia 12 do calendário da folhinha e apagar do celular aquela data, como não consegui fazer aquilo quebrei o aparelho em pedacinhos assim resolvia de vez dois problemas: o da presença infame da data como também o da criatura resolver ligar. Naquele ponto da história ela não era mais meu amor e sim uma coisa, uma coisa que um dia inventei e agora estava deixando partir.