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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jogo de Espelhos


-Tina,iremos na casa de sua prima Emília.Vista-se logo.Estou com pressa.
Em pouco tempo estavam na sala prontas pra sair.
-Vamos logo não quero chegar tarde.
Na casa de Emília um quase monólogo se instalava.
-Li esse livro há anos.Tome.Você vai gostar.
-Ah...Obrigada.Disse Tina tentando sorrir.
-Há também esses Cds,Dvds...Você vai gostar.
-Guarde mamãe.Disse Tina.
Emília passeava por todo o quarto, parecia extasiada.Gesticulava demais,falava alto.
-Como eu ia dizendo pra vocês: Roberto e eu mandamos ampliar a casa pra quando as crianças chegarem,e depois também temos os parentes,e no futuro os netos pra que preencham esses novos espaços.
-Oh,mas venham comigo pois está na hora do lanche.Devem estar com fome...Pudera vocês moram tão distante...Fico feliz que tenham vindo me ver.
-Também estamos felizes não é Tina?
-Claro mamãe.
-E,então estão gostando do lanche?Posso mandar preparar algo pra levarem na viagem de volta,vocês moram tão longe...Sentirão fome no trajeto de volta.
-Prima Emília você nunca foi em nossa casa, do contrário saberia que não moramos assim tão longe.De qualquer forma agradeço a gentileza.
Era mesmo verdade: Emília nunca havia visitado a prima.Não eram assim tão amigas,mas era preciso recebê-la,ser sociável.
Tina achegou-se ao ouvido da mãe e disse:
-Vamos embora mamãe.A prima Emília é muito chata.
-Não fale assim filha ela te deu tantos presentes.
-Não pedi nada.Ela deu por que queria aparecer,se mostrar bondosa.
Emília ouvia tudo calada e fingia não ouvir,porém afirmava pra si mesma que aquilo era verdade.
As visitas levantaram e anunciaram a saída.
As mulheres se abraçaram sem nenhum afeto de parte a parte,cada qual ali queria o seu quinhão:uma queria apaziguar os próprios demônios fazendo-se bondosa,ainda que falsamente.A outra ia comer da melhor comida que havia na mesa de toda sua família.E,por fim,temos Tina que desejava ocultamente tudo aquilo,pra depois desdenhar dos presentes.
Era começo de noite,mas estranhamente fez-se luz:
-Prima Emília..
-Diga Tina.
-Não gosto da senhora.
A mãe de Tina não sabia onde por o rosto.
-Filha..
-Não me puna mais mamãe.Acho que passar a tarde diante dessa senhora esnobe já é castigo o suficiente.
-Pois se querem saber - dizia Emília - Eu que não aguento mais as visitas de vocês duas.Só sabem sugar,nenhuma vem aqui pra saber como eu estou ou o que penso.Querem apenas presentes e boa comida;e não pensem que eu não sei que falam mal de mim mesmo quando ainda estão em minha casa.

Enfim caíram as máscaras.Estavam limpas diante de si mesmas e das outras pela primeira vez na vida.

sábado, 10 de março de 2012

Marcas de Batom


O tom ainda não é esse. Experimentaram cores e mais cores, até que a mais velha pegou a mais vibrante e disse:

-É essa. Essa que você usará.

A outra estava pálida diante dela, usava uma blusa branca, calçava chinelos simples, eram pobres, não pelos trajes, mas pelos fatos que vêm a seguir.

-Olhe pra mim e veja como deve fazer, como olhar, e se portar diante deles... Falando isso riu ridiculamente, soltando beijinhos em pleno ar.

A outra via tudo tristemente, entendia aquilo de forma ainda muito rudimentar, tinha então nove anos, a outra deveria ter uns 12 ou 13, contava dois abortos como triunfo daquela vida que a mais jovem criança viria a adentrar.

Saíram pelas ruas escuras e estreitas, tétricas figuras passavam por ali. Tinham medo, Sara a mais nova estava aterrorizada.

-De que tens medo? A mais velha sorriu ironizando, pois ela também sentia medo.

Outras mulheres circulavam pelo local, criaturas tão jovens estavam tão velhas e gastas como o vestido dourado esmaecido de uma delas, humanidade tenha um pouco de piedade dessas mulheres.

Uma criatura estrábica aproximou-se das nossas meninas, olhou-as com maldade, uma maldade suja e vil, se fosse possível prendê-lo naquele momento... Não havia polícia nas ruas, não ali.

-Aqui está ela. Como prometi. Disse o verme pra outra criatura asquerosa com a qual confabulava. Dizendo isso apontou pra Sara. Leve-a consigo e traga daqui uma hora, quero pagamento adiantado.

-Não pago.

-Ou paga ou não leva. Gritou puxando a arma pro outro.

“Amabilidades” acertadas levou a garota consigo. E o que ocorreu meu Deus, fechei os meus olhos pra não ver, tapei os ouvidos pra não lhes escutar os gritos, mas a minha consciência não me deixa largar a pena, preciso contar-lhes...Levou-a consigo arrastada pelos bracinhos finos, toda ela era uma tênue corda de trapezista, e ela estava a minutos da queda fatal.

A irmã mais velha, encolhida, a metros de distância daquilo, chorava baixinho, cabeça escondida entre as pernas, o corpinho tremia e ofegava impaciente. Não rezava, não gritava, apenas grunhia. Era um animal.

Cambaleante preparava-se pro salto mortal, pra algo completamente desconhecido. Olhava pra baixo e via o abismo diante de si, era tão alto, ela sentia tanto medo... Só o corpo dela estava ali, a sua alma vagueava diante daquele abismo que era a situação na qual se achava.

Clara, a mais velha, num lampejo de compaixão e lucidez correu até a cena dantesca prestes a consumar-se, atirou-se sobre o monstro que tentava cruelmente usar sua irmã como um dia fizeram com ela...E era tão cedo, foi há tanto tempo...Havia sido levada pelos próprios pais, era tão jovem, tão criança, tão...Já não pensava mais nada, via apenas a face do homem diante de si, lutando contra ele, numa luta desigual e infame, desferia-lhe mordidas, que ficavam como nódoas misturadas a batom barato na pele dele.

Os outros que também estavam na rua fugiram, uns pra não pagar a “corrida”, outras pra levar uma vantagem, por mínima que fosse. Ficaram apenas as duas ali contra ele... Mortas ambas de pancadas, por um monstro... Corpos estendidos numa rua qualquer... Eram e ainda são as marcas de batom... Marcas da prostituição.

Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração contra Crianças e Adolescentes – Disque 100
O Disque 100 funciona diariamente das 8h às 22h, inclusive nos fins de semana e feriados.
Por favor,não passe trotes.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vaso de Porcelana





Atirou o chapéu na mesa, sentou numa cadeira, arrotou aos quatro ventos pra quem quisesse ouvir e sentir aquele odor...


O garçom aproximou-se dele:

-Venha comigo, por favor, sua conduta não condiz com o estabelecimento.

-Não irei a lugar algum. Estou esperando alguém.

-Ou o senhor vem comigo ou chamo o gerente.

Nesse instante uma moça aproxima-se da mesa, cumprimenta a ambos, puxa a cadeira mais próxima e senta. É muito bela e discreta. Era disso em maior parte composta a sua beleza, da sua discrição.

O garçom olhou pro homem ainda sentado desajeitadamente uma última vez e saiu.

-Aqui está. Disse ela entregando uma pasta.

-Muito bem. Tirou uma caneta do bolso e rubricou nos locais indicados. Estava consumado.

Ela sorriu satisfeita. Um sorriso terno e doce, talvez maternal.

Levantou-se e saiu.

O homem ainda ficou ali por uma hora ou duas bebericando uma cerveja, a esta altura bem quente, deixou o dinheiro embaixo do copo e saiu. Ali não era ambiente pra uma criatura como ele, com a “esmerada” educação que tivera dos pais... Frequentar restaurantes finos tais aquele? Era a primeira vez. Era a primeira vez que sentia o verniz da sociedade, não se sentiu intimidado, mas estava contrafeito com o tratamento recebido, era contra seus princípios de educação frequentar lugares como o que acabara de deixar,foi por insistência de Isabel que se encontraram ali. Ficara órfão de mãe aos oito anos, o pai abandonou-a grávida, não o viu sequer uma vez em 30 anos de existência.

Na rua sentia o efeito das rubricas sobre o mundo. Contrato assinado. Rubricado em cada rodapé de páginas. Parecia feliz. Dentro de seus olhos brincavam as letrinhas do seu nome.

No outro ponto da cidade Isabel entrou no edifício, sempre cordial cumprimentou os funcionários da empresa. Ouvia-se a largas vozes por ali e por toda a parte o quanto ela era correta e querida entre os companheiros de trabalho, do maior ao menor, eram todos respeitados.

-Que mulher admirável, Jaime. Disse Pedro.

-Eu com uma mulher dessas estaria feito. Quem dera a jararaca lá de casa fosse tal qual ela.

Fechou a porta. Sentou. Folheou cada página com cuidado. Antunes havia cumprido sua parte no acordo.

-Antunes! Meu velho e bom Antunes. Era saudado na rua por amigos, conhecidos, aclamado com unanimidade.

-Olhe meu caro a melhor coisa que você fez foi vender a casa.

Enfim o negócio estava liquidado.

Com o dinheiro “ajudaria” inclusive a Isabel, ela que estava “ajudando-o” a ser um homem de classe. Aquele dinheiro pagaria as prestações que se acumulavam do hospital, os remédios e todo o resto. Antunes estava doente. Talvez morresse em breve, mas não estaria sozinho nem desamparado...Aquela mulher também seria paga, assim como o hospital e os remédios, pra acompanhá-lo em sua solidão.

Isabel era uma flor muito fina, mas não rara, advogada competente, escritório próprio e bem frequentado. Ajudaria de forma muitíssimo nobre aquele homem. Receberia centavo por centavo, cada minuto de companhia ou instrução de educação.

Os clientes eram cada vez mais frequentes... Em pouco tempo era procurada por outros Antunes, sua fama era imensa, a doce e amável mulher, educada, porcelana que ornava as salas, canto que enchia as manhãs, aquela que provocava suspiros e invejas...Ninguém suspeitava...Uma grande mulher ou uma grande ratazana?

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Fotos.Fatos das Ruas.



Olhos fechados, perigo imenso, solto na rua o cão ladrava. Os passantes apavorados, esquivos, xingavam. Era um coisa ruim. Comia dedos, devorava almas. Estava doente. A baba escorria abundantemente ao canto da boca, escancarada, ofegante, cheia de dentes ferozes ou inofensivos. Deitou-se num canteiro de cactos, espinhosos como ele. Estava insone ,ferido, longe de casa.

O frio era imenso. As gotas de orvalho caiam em seu corpo franzino, delicado. Um contraste perfeito com sua alardeada agressividade.

-Bambino! Bambino!

As notas familiares trouxeram-lhe paz... Em minutos estaria em casa. Caminha quente. Parecia humano... Tantos mimos... As cobertas macias, comida agradável, bons donos, fiéis e cordatos. Olhou pra eles, um olhar difuso... Achegou-se até a janela. A chuva continuava e cães como ele estariam lá fora. Como ele não, ele tivera mais sorte. Tinha um lar. Aos cães abandonados ele volveu seus olhos lúcidos que ao encontrarem aqueles embotados pelas maldades do mundo, verteram lágrimas de dor, uma ainda maior do que a que sofrera na rua. A todo animal, a toda criança abandonada... Pede-se apenas LAR.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Os Pecados Divinais de Ataulfo

Rabisca, rabisca!Só mais um retoque e estaria pronta, perfeita, divina!Dera uma trabalheira aquele retrato, modelo feia, porém esposa de um figurão, Senador por um dos estados mais importantes da federação.
-Boa tarde excelência, sua esposa e eu temos uma surpresa...
-Não digam que o quadro já está terminado?
-Veja por você mesmo querido.
-E então Senador, mereço ou não o cargo que pleiteio?
Chamando-o ao canto do gabinete segredou-lhe:
-Trabalho de mestre meu rapaz, seja sincero minha senhora é uma formosura, não é?
-Com todo respeito que lhe devo por ser mulher casada e muito bem casada, é sim senhor – engoliu em seco, que mulher feia e desengonçada a senhora Gomes!Mas as feias tem sempre mais qualidades e oferecem menos riscos...Adorava uma feia, tadinha delas;somente um verdadeiro artista pra desvendar-lhes a beleza oculta.
Um apertão firme do Senador Gomes acordou-lhe:
-Então meu caro parece que estás apaixonado por minha mulher, não tolero esse tipo de traição. Será que atrapalho suas conjecturas sobre a obra ou flagro seus olhares devassos?
-Desculpe Senador Gomes, mas o trabalho está entregue. Diante de tal ofensa vejo-me forçado a cortar relações com sua família.
-Que é isso meu rapaz... – Estava desarmado, o pátira demonstrara tanto brio, não tinha palavras pra novas acusações!
A excelentíssima Gomes, (pra quem não sabe mulher de excelência é uma também, por vários motivos, um deles: ter sempre razão. Salvo situações nas quais seja forçoso discordar desta pra concordar com o esposo) até o momento alheia a conversa, aproxima-se do marido, abraçando-o.
-Senhor Ataulfo fiquei muito lisonjeada pela obra, mas sinto acusá-lo de não corresponder a verdade dos fatos: olhe pra mim e olhe pra sua tela...Tão bonita,altiva.
-Ora senhora não queira culpar-me por sua modéstia...
Era uma santa posta num altar magnífico, quanta graça; era mesmo belíssima a sua senhora, prenda digna de reis, e ele era um não era?Quem seria audaz pra dizer o contrário?
Sempre virtuosa madame Gomes baixou os olhos meigos, tomou as mãos do pintor... Sua constatação, quase um clamor, fez eco no gabinete do senado:
-És um santo!
Isso bastou pra iluminar o ciumento Senador. 
Manhã de segunda-feira o Senhor Ataulfo Mendes era cumprimentado entre beijos e abraços saudosos... Enfim saíra a nomeação pra embaixada.
Era mesmo uma santa. Virtuosíssima...       

*pátira: patife