quinta-feira, 28 de junho de 2012
Uma Grande Conversa
Chegou em casa pensativa.O dia havia sido muito desgastante.Os alunos estavam a cada dia mais crescidos e birrentos e o salário mais minguado.Sobre o joelho um caderno amarelo de capa gasta.Pertencia a um dos alunos.Devolveria na segunda.
Colocou o caderno sobre a mesinha de centro da sala e foi pra cozinha preparar o jantar.Comeu sozinha.Não era casada,não tinha filhos.Os pais de Lilian moravam noutra cidade,iria vê-los no dia dos pais.Ainda faltava um pouco.
Desligou todas as lâmpadas da casa.Certificou-se que todas as portas e janelas estavam trancadas.Voltou novamente à sala e sentou-se no sofá.Ficou ali sorvendo mansamente aquele espetáculo de escuridão,absorvendo pouco a pouco os elementos do ambiente:a escuridão e a calma.Adormeceu.
Mergulhemos então na mente de Lilian e saíbamos o que se passou essa noite enquanto sonhava.
-Onde estou?Disse ao se deparar no quintal de uma casa.
-Você está entre amigos.Disse um dos homens e completou:
-Venha conosco.
Eles atravessaram o muro coberto de musgo.
-Como vocês fazem isso?
-Isso é só um sonho.Não tenha medo.
Assentiu com a cabeça e entregando sua mão a uma senhora prosseguiu a excursão.
-Iremos fazer uma viagem.Disse a mulher.
-Não diga que tomaremos um ônibus em pleno sonho?
-Não será preciso.Comandaremos tudo com a imaginação.Não esqueça você está apenas sonhando...Isso é um processo normal:quando dormimos a mente se liberta um pouco dos problemas e inquietações e fica livre pra imaginar,pra criar coisas.Você cria coisas muito boas quando dorme.
-Eu?Indagou perplexa.
-Venha ver estas flores.Vê o quanto são belas?Você vem aqui todas as noites no jardim dessa casa e rega todas elas.
-Não lembro de ter feito algo assim.Raramente me lembro de sonhos.
-É que sua mente anda muito inquieta.Relaxe um pouco.Respire fundo.Agora pense nas coisas que você gosta,que você ama.
De olhos fechados a professora pensava nos entes que mais amava:os pais.os alunos...E em tantas outras coisas pequenas ou grandes diante do coração.
-Agora abra os olhos disse o homem.Veja o que te cerca.
Diante de Lilian e de todos os presentes viam-se imagens imperfeitas das várias emanações do pensamento dela.
-O que é isso?É assombroso.
-Quando nós pensamos nós criamos aquilo.De alguma forma isso tudo é real.Mesmo sem ser.
-E quanto as flores?
-Você costumava gostar muito de flores na sua infãncia...Lembra?Você está de alguma forma lembrando daquilo,cultivando suas memórias e trazendo-as para o presente,cultivando ainda mais flores...Hoje você cuida tão pouco delas.
-Moro em um apartamento,fico pouco tempo em casa,vivo uma rotina muito difícil...
-E, é pra mim que você vem dizer isso?Sei de tudo sobre você.
-Quem és?Um mago?Bruxo?
-Sou uma parte do teu cérebro.O teu subconsciente,quardo as tuas memórias.
-Hã?
-Bem vinda a vida querida.Agora que você já sabe como tudo funciona,que tudo que fazemos deixa pegadas,rastros,se posterioriza de diversas formas...Você bem que poderia nos dar um descanso de tantas preocupações,não acha?
O sol não conseguiu entrar através das portas e janelas trancadas.Naquele sábado Lilian dormiu calma e longamente.Estava precisando.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Não é Preciso Dizer Adeus
Pegou os elementos rústicos e guardou-os no fundo de uma caixa.Olhou-se.Estava muito bonita,perfumada,penteada...Rodava os anéis nos dedos como um bambolê.As meias eram novas,e a tiara bordada também era.
-Vamos.
Rute não se despediu de nada.Somente no futuro poderia dimensionar aquela partida,aquela ruptura com o sertão.
Os anos passaram-se,e nossa Rute observava do portão os filhos dobrarem a rua pra irem à escola.Um aperto no coração.Era a primeira vez que iam sozinhos.Estavam grandes.Quase adultos.
"Mentira".Disse pra si mesma.Eram apenas crianças.Daqui a pouco ligaria pra escola,queria ter certeza que chegariam bem...
Entrou em casa desnorteada,segurando-se nas paredes,sentou-se perto da janela.Estava preocupada.
-Rute!Gritou uma vizinha no portão.
-Agora não posso.Estou ocupada.
Continuou ali na janela vendo a vizinha ir embora.
-Que ocupada que nada.Ela estava era na janela vendo a vida alheia.Pensou a outra seguindo o caminho de volta até em casa.
As horas iam passando.Precisava por as coisas em ordem, fazer o almoço,tirar as roupas do varal,arrumar as gavetas...E foi dentro de uma gaveta que encontrou a caixa,limpou-a com um pano seco e deixou-a na sala esperando a volta das crianças.Fechou a porta de casa.Saiu pra buscá-las.
Conversaram animadamente durante todo o caminho.Alexandre e Fernanda contavam pra mãe a grande aventura que tinha sido a primeira ida sozinhos até a escola.
-Fizemos como a senhora disse mamãe.Nada de conversas com estranhos.Disse Alexandre.
-Tenho duas surpresas esperando por vocês lá em casa.Disse a mãe sorrindo contente.
-Conta mamãe.Pediram os dois a um só tempo com olhinhos ansiosos pelas novidades.
Depois do almoço a primeira surpresa surpresa:
-O sorvete de abacaxi que vocês tanto gostam.Disse orgulhosa.
Enquanto as crianças se deliciavam com a sobremesa Rute pegou a caixinha e colocou-a no colo.
Alexandre sempre atento não perdia nenhum detalhe.
-Mamãe que caixa é essa?
-Venham cá.Aproximem-se.
Elas se aproximaram repletas de curiosidade.
-Que há aí dentro? Disse Nanda.
A mulher abriu a caixinha de madeira e lentamente tirou um a um os objetos,mostrando-os aos filhos.
-Um anel!Exclamou Fernanda com os olhos faiscantes.
-Era da mamãe quando ela era assim quase do seu tamanho.Falou Rute.
-Uma boneca de pano mano.Olhe o tamanho dela...Bem pequena.
-Uma sandália e que cheiro engraçado ela tem.
-É de couro filho,é o cheiro do couro.Foi minha primeira sandália.
Ficaram ali brincando durante toda a tarde com os resquícios da meninice de Rute.A saudade apertando no peito a cada brincadeira dos filhos.Era ela ali de novo,vivendo de novo,perpetuando-se...Uma forma de nunca dizer adeus...Como nunca soubera dizer pra sua terra.Nem sempre é preciso dizer adeus...
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Por Favor,Uma Dose de Calma...
-Belos sapatos.Disse pra amiga ao se despedirem.
Clara ficou imóvel vendo a outra confundir-se na multidão; parecia alheia a tudo,como se nada mais tivesse importância.Deu uma volta,depois seguiu pra casa,depositou os pacotes das compras que fizeram no sofá,começou a abrir um a um os embrulhos.
"As compras vieram trocadas".Recolocou tudo no lugar.Devolveria as sacolas depois.Estava muito cansada.Remexeu as sobras de pão na cozinha,tomou um café frio.Escovou os dentes.Deitou-se e dormiu.
Horas mais tarde...
Trim.Trim.Desligou o celular sem nem ver quem era.Continuou dormindo como era de se esperar numa madrugada.
Estava quase amanhecendo quando ouviu baterem na porta.
"Quem será essa hora?" "Não vou atender,que espere até amanhã seja lá quem for".
Mas o tal seja lá quem for continuou batendo na porta.
"Que ódio!".Colocou outra roupa por cima do pijama e foi espreitar quem estava lá fora.
-Paula,o que você faz essa hora batendo na minha porta?Você está bem?Aconteceu alguma coisa?
-Você está com minhas compras...E eu vim buscá-las.
-E não poderia ter vindo mais cedo ou ter esperado até amanhã?
-Tentei falar com você,mas você não atendeu.
-Já estava deitada.Desliguei sem nem olhar quem era,quis continuar dormindo.
-Mas eu não consegui dormir.Meus remédios ficaram nas compras que vieram contigo.
-Aqui estão.Confira.Disse tentando parecer gentil.A verdade é que estava detestando ter seu sono interrompido por aquela confusão.
Despediram-se.
Já na cama Clara não conseguia dormir.A outra parecia ter levado o seu sono com ela.
"Que fazer?" Ligou pra uma farmácia 24 horas e pediu um tranquilizante.
Não seria mais fácil se a amiga tivesse feito isso ao invés de vir perturbá-la?
Antes que o entregador chegasse dormiu...Daqui a pouco outra raiva: acordaria novamente pra receber os tranquilizantes...Ao menos eles cumpririam seu papel.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
"E no Meio do Caminho Havia..."
Essa manhã houve
um grave acidente aqui na rua. Começava a narrativa o Gabriel, morador ilustre
daquela cidade; o jornalista estava atento a cada palavra do homem, aquilo era
uma situação muito peculiar.
-Pois, então senhor...O que o senhor disse que faz mesmo?
-Sou jornalista. Faço
perguntas pra colocar na reportagem, quero contar pras pessoas o que aconteceu.
-Mas isso eu
posso fazer. E melhor que o senhor, eu vi tudo, todo o ocorrido.
-Então “tá”
certo, farei uma reportagem em áudio e vídeo, melhor do que só escrever a
matéria.
Improvisou a
filmadora que tinha no carro. Seria sem o câmera mesmo, fariam o trabalho, ele
e o "seu" Gabriel. Levariam para o mundo a grande noticia.
O velhinho estava contente.
Iria ficar ainda mais presente na história daquelas pessoas. O filho dos
fundadores daquela cidade definitivamente marcaria seu nome na memória popular,
”sem falar a contribuição para o futuro”... E foi pensando em tudo aquilo, com
os olhos luzindo de contentamento e espanto diante do equipamento do jornalista o senhor Gabriel ouviu:
-O senhor está
pronto seu Gabriel?
O velhinho
sorriu, sem dentes, olhos marejados pelo que iam fazer e disse:
-Pronto pra fazer
história meu filho. Pra fazer história.
Nildo se aprumou
todo, ficou bem sério e começou:
-Estamos aqui na
cidade de Pirituba do norte divisa do nada com lugar algum, onde aconteceu
"um acidente" fantástico, sobre isso o senhor Gabriel Oliveira Ramos
que está aqui ao meu lado falará um pouco melhor. Seu Gabriel o senhor poderia
contar pro Brasil todo o que houve por aqui?
-Claro, “nós não
já tinha” combinado que eu ia contar?
-Sim, seu
Gabriel. O Jornalista riu diante da sinceridade do outro.
-Então, pessoal o
que sucedeu foi o seguinte. Como todo mundo deve saber Pirituba do Norte é uma
cidade bem longe da capital do progresso, mas o caso foi que resolveram
asfaltar a estrada principal. Foi uma felicidade só.
-O senhor poderia
encurtar a história? Nosso tempo no ar é curto.
-O senhor quer
que eu conte a história ou não?
Nildo, o
jornalista, fez sinal pra que o homem continuasse a história.
-Como eu ia
dizendo minha gente... O pessoal "tava" muito feliz com o asfalto... Mas
no primeiro carro que passou em alta velocidade aconteceu um acidente horrível.
Da metade da estrada pra lá, disse isso apontando pro local depois da passagem
do carro, a cidade se elevou toda parecendo uma montanha. A terra lá tá
escorregadia, o povo não pode descer pra cá, nem quer ficar lá
.
.
Nildo apontou a
câmera para o local do "acidente".
-É algo
surpreende e de proporções assustadoras o que aconteceu aqui, uma cidade quase
toda sair do lugar. O que a população acha que pode ter sido a causa seu
Gabriel? O movimento das placas tectônicas?
-Olhe o senhor me
respeite. Sou um pai de família, nasci e me criei nessa cidade fundada por meus
pais, não tenho nada a ver com “essas tal” de placa tectônicas não.
-Se acalme seu
Gabriel. Estamos no ar.
-Que ar coisa
nenhuma. No ar estão eles lá, olhe lá em cima no "arto", na montanha
que aquele asfalto vagabundo formou.
sábado, 10 de março de 2012
Marcas de Batom
O tom ainda não é esse. Experimentaram cores e
mais cores, até que a mais velha pegou a mais vibrante e disse:
-É essa. Essa que você usará.
A outra estava pálida diante dela, usava uma
blusa branca, calçava chinelos simples, eram pobres, não pelos trajes, mas
pelos fatos que vêm a seguir.
-Olhe pra mim e veja como deve fazer, como
olhar, e se portar diante deles... Falando isso riu ridiculamente, soltando
beijinhos em pleno ar.
A outra via tudo tristemente, entendia aquilo
de forma ainda muito rudimentar, tinha então nove anos, a outra deveria ter uns
12 ou 13, contava dois abortos como triunfo daquela vida que a mais jovem criança
viria a adentrar.
Saíram pelas ruas escuras e estreitas, tétricas
figuras passavam por ali. Tinham medo, Sara a mais nova estava aterrorizada.
-De que tens medo? A mais velha sorriu
ironizando, pois ela também sentia medo.
Outras mulheres circulavam pelo local, criaturas
tão jovens estavam tão velhas e gastas como o vestido dourado esmaecido de uma
delas, humanidade tenha um pouco de piedade dessas mulheres.
Uma criatura estrábica aproximou-se das nossas
meninas, olhou-as com maldade, uma maldade suja e vil, se fosse possível
prendê-lo naquele momento... Não havia polícia nas ruas, não ali.
-Aqui está ela. Como prometi. Disse o
verme pra outra criatura asquerosa com a qual confabulava. Dizendo isso apontou
pra Sara. Leve-a consigo e traga daqui uma hora, quero pagamento adiantado.
-Não pago.
-Ou paga ou não leva. Gritou puxando a arma
pro outro.
“Amabilidades” acertadas levou a garota
consigo. E o que ocorreu meu Deus, fechei os meus olhos pra não ver, tapei os
ouvidos pra não lhes escutar os gritos, mas a minha consciência não me deixa
largar a pena, preciso contar-lhes...Levou-a consigo arrastada pelos bracinhos
finos, toda ela era uma tênue corda de trapezista, e ela estava a minutos da
queda fatal.
A irmã mais velha, encolhida, a metros de
distância daquilo, chorava baixinho, cabeça escondida entre as pernas, o
corpinho tremia e ofegava impaciente. Não rezava, não gritava, apenas grunhia.
Era um animal.
Cambaleante preparava-se pro salto mortal, pra
algo completamente desconhecido. Olhava pra baixo e via o abismo diante de si, era
tão alto, ela sentia tanto medo... Só o corpo dela estava ali, a sua alma
vagueava diante daquele abismo que era a situação na qual se achava.
Clara, a mais velha, num lampejo de compaixão
e lucidez correu até a cena dantesca prestes a consumar-se, atirou-se sobre o
monstro que tentava cruelmente usar sua irmã como um dia fizeram com ela...E
era tão cedo, foi há tanto tempo...Havia sido levada pelos próprios pais, era
tão jovem, tão criança, tão...Já não pensava mais nada, via apenas a face do
homem diante de si, lutando contra ele, numa luta desigual e infame, desferia-lhe
mordidas, que ficavam como nódoas misturadas a batom barato na pele dele.
Os outros que também estavam na rua fugiram, uns
pra não pagar a “corrida”, outras pra levar uma vantagem, por mínima que fosse. Ficaram
apenas as duas ali contra ele... Mortas ambas de pancadas, por um monstro... Corpos
estendidos numa rua qualquer... Eram e ainda são as marcas de batom... Marcas
da prostituição.
Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração contra Crianças e Adolescentes – Disque 100
O Disque 100 funciona diariamente das 8h às 22h, inclusive nos fins de semana e feriados.
Por favor,não passe trotes.
Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração contra Crianças e Adolescentes – Disque 100
quinta-feira, 1 de março de 2012
O Melhor Presente
Conto feito para Elen Alcântara:que tu,menina, continues a gostar das letras e da magia das palavras.
-Aqui está o teu presente filha.
A garota saltitante,correu e abraçou a bondosa senhora.Não era mais uma garota e sim uma mulher,e ali diante dela estava uma senhora mais perto do fim do que do começo da vida,mas o que importa?
Olhou o presente curiosa como se ainda fosse aquela menininha de outrora.Balançou a grande caixa,cheirou...Por fim rasgou o embrulho,tão bonito.
Dentro da caixa havia uma menor,que coisa!!Já havia visto essa cena antes,várias caixinhas,uma dentro da outra,como a esconder um precioso segredo,o que estaria ela reservando a si?Uma rosa?Uma jóia?
Continuou sua "jornada",a cada segundo mais curiosa.
A velha senhora ria contente.Os olhinhos de sua "criança" brilharam de contentamento ao ver o presente:
Um minúsculo quadrado.Seria um cubo mágico?
A mulher adivinhando-lhe os pensamentos disse:
-É um cubo mágico.
-A senhora sabe montar?
A outra deu uma gostosa gargalhada.
-Este é diferente.Clélia tomando o objeto das mãos da filha, abriu-o:
Eis que diante de ambas revelou-se o lindo cenário da poesia.
-O que quiseres de bom pra si e pro mundo,com o cubo criarás.Mas lembre-se:crie somente o bem.
Envolvidas pelo momento abraçaram-se."E a poesia daquele momento inundou suas vidas inteiras".
Abaixo Poesia de Drummond,O grande,O mestre de todos nós.
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
-Aqui está o teu presente filha.
A garota saltitante,correu e abraçou a bondosa senhora.Não era mais uma garota e sim uma mulher,e ali diante dela estava uma senhora mais perto do fim do que do começo da vida,mas o que importa?
Olhou o presente curiosa como se ainda fosse aquela menininha de outrora.Balançou a grande caixa,cheirou...Por fim rasgou o embrulho,tão bonito.
Dentro da caixa havia uma menor,que coisa!!Já havia visto essa cena antes,várias caixinhas,uma dentro da outra,como a esconder um precioso segredo,o que estaria ela reservando a si?Uma rosa?Uma jóia?
Continuou sua "jornada",a cada segundo mais curiosa.
A velha senhora ria contente.Os olhinhos de sua "criança" brilharam de contentamento ao ver o presente:
Um minúsculo quadrado.Seria um cubo mágico?
A mulher adivinhando-lhe os pensamentos disse:
-É um cubo mágico.
-A senhora sabe montar?
A outra deu uma gostosa gargalhada.
-Este é diferente.Clélia tomando o objeto das mãos da filha, abriu-o:
Eis que diante de ambas revelou-se o lindo cenário da poesia.
-O que quiseres de bom pra si e pro mundo,com o cubo criarás.Mas lembre-se:crie somente o bem.
Envolvidas pelo momento abraçaram-se."E a poesia daquele momento inundou suas vidas inteiras".
Abaixo Poesia de Drummond,O grande,O mestre de todos nós.
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Caixinha de Música
Adentrou o lotado teatro municipal, havia
muitos conhecidos... E ele era um deles. Deu um passo pra frente como uma sílfide*,
contemplou e cumprimentou a plateia. Estavam todos ansiosos pela estreia
daquela noite, seria a consagração ou o desastre completo da nova primeira
bailarina.
Vê-la dançar era como admirar a beleza da
garça ou a elegância do cisne, e ali diante de um dos espectadores daquela cena
maravilhosa algo inusitado ocorreu.
Diante dele uma velhinha muito sábia colocou-lhe
nas mãos o pequeno objeto, ele aproximou-o dos olhos... Parecia incrédulo: de
repente a bailarina olhou-o desafiadoramente, parecia cansada e triste. Admirado
daquela cena o cavalheiro ousou num lance mágico dar corda a bailarina da
caixinha de música, era o objeto que possuía nas mãos, para que ela voltasse a
bailar, e fez-se também seu partner para que com ela pudesse dançar... Aquela
valsa... Ela rodopiava em seus braços com graça e maestria, levava o próprio
coração na ponta das sapatilhas.
*Sílfide: mulher esbelta, delicada.
Obs: Aqui há um misto de realidade e ficção
onde os personagens dessa história ultrapassam o limite físico e ingressam no
mundo mágico da arte, transcendendo os limites da realidade e do sonho.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Meia Dúzia
Era uma quinta
diferente de todas as outras. Estavam reunidos ali pra julgá-lo. Era esse o seu
trabalho mais arriscado. Mas qual razão havia pra que depois de tanto sucesso resolvesse
ainda assim arriscar-se a criar uma história qual esta que segue? Respondeu
apenas que era O Grande Desafio que havia proposto a si.
Olhos firmes e
rasos estava pronto pras acusações e defesas daquela tarde.
O juiz entrou na
sala carregando o grande livro: O Auto da Barca do Inferno. Excelentíssimo Gil
Vicente parecia implacável. Logo atrás do meritíssimo entraram as testemunhas
de acusação e de defesa, do lado direito do réu estava o júri popular. O
promotor convulso esfregava as mãos. Teria início o julgamento mais importante
de suas vidas.
Sentou-se e pediu
que o júri e os demais fizessem o mesmo.
O réu jurou
diante de todos com a mão sobre O Auto Da Barca do Inferno dizer a verdade, tão
somente a verdade. Se houvesse Crime confessaria, se houvesse culpa haveria
Castigo.
Começou a falar
timidamente, contudo foi tomado pelas palavras, que vivas falavam por si de
forma eloquente.
-Em minha
defesa...Em minha defesa tenho a dizer que tudo quanto fiz durante esses 6
meses foi dedicar-me intensamente ao meu trabalho,buscar melhorá-lo,ter
criticidade antes que outros como vocês o façam nesse julgamento.Sabia o tempo
todo que esse dia chegaria,mas não pensei que fosse tão depressa e humilhante
vir até aqui.
As testemunhas
cochichavam entre si.Era uma verdadeira Paulicéia Desvairada ora a brincar ora
a discutir o tema com seriedade.
-Rua dos Cataventos,Largo da Palma.Foi ali o
local do crime?Perguntaram Quintana e Adonias Filho a um só tempo,inquirindo o
réu.
-Não vejo Crime.Não cometi coisa alguma.Estou
me sentindo tal qual as Vítimas do Preconceito.
-Ora,onde está o preconceito?Você ousa
comparar-se a nós,diz-se grande escritor,contador de histórias mais fabulosas
que As Reinações de Narizinho,e o preconceituoso sou eu?
-Então estou sendo acusado,julgado, por ousar
como disse o senhor Monteiro Lobato escrever histórias.Desde quando isso é
errado?
-Quando não nos ameaça.Olhe pra você uma
criaturazinha medíocre,um reles escritor,desista do ofício meu caro,suas ideias
não passam de simples Ilusões.Disse Padre Antônio Vieira começando com os
Sermões.
-Alto lá padre!Desde quando vigário de
paróquia pode se acreditar senhor do mundo?Bradou Erasmo de Roterdam furioso
proferindo o seu Elogio da Loucura.
-Parece que ao menos um de vocês está decidido
a ajudar em minha defesa.
-Assim Falou Zaraustra e assim falo também
eu.Proferiu Erasmo e ajuntou essa:sou seu amigo,da mesma forma que Scliar era O
Amigo de Castro Alves.Defenderei você com unhas e dentes.
-Obrigado.
Nesse instante alguns escritores saiam aos
murros,rolavam pelo tapete da sala diante do juiz.
-Ordem no tribunal ou declararei suspenso o
julgamento.Ordenou Vicente cravando os olhos fixamente em Gregório,o boca do
inferno.Ele havia provocado agitação em massa.
-Guardarei as Memórias da Loucura de
hoje.Falou Casmurro.Mas ainda assim não serão mais marcantes que as Memórias
Póstumas de Brás Cubas...Ah,que memórias!
-Deixe de sandices Casmurro.Implorou Florbela
tendo o coração contorcido,uma Charneca toda em Flor,fazia então a Lira de seus
Vinte anos.Vinte anos de seiva e juventude...Espumas flutuantes.Era a data do
seu Aniversário,o julgamento de um jovem escritor seria uma bela Mensagem?
Fernando Pessoa achegou-se ao réu e disse:
-Serei breve,usarei menos de Cinco Minutos do
seu tempo.Respeito-o profundamente,contudo gostaria que pudesse entender a
revolta deles:Vidas Secas,é isso que a juventude tem feito de grandes autores
quais estes,mas eles são A Rosa do Povo,O Sentimento do Mundo.Gostaria que você
os perdoasse.
-Quero somente a Reconciliação.Não farei da
minha vida um Livro de Mágoas.
O relógio estava prestes a desferir a sua 12º
badalada,Aqui Entre Nós havia O Grande Desafio,declarar Lindolfo culpado ou
inocente.
O Juiz decidiu por bem ouvir O Veredito do
povo:sozinho com eles confabulava o destino daquela criatura,enquanto esta do
lado de fora, aguardava ansioso em Silêncio como fazem os Inocentes.
Após ouvir a todos Gil Vicente sentou-se,havia
no Excelentíssimo juiz algo diferente, como se A Metamorfose tivesse se realizado
por completo.Falando de forma improvisada passeava por toda a sala como se esta
fosse Um Céu Numa Flor Silvestre.
Os Miseráveis do mundo trouxeram até nós um
pobre homem que fia letras,tece palavras;influenciados por eles grandes
escritores como os que se encontram aqui foram levados por intrigas a acusá-lo
de sujar o passado glorioso deles ao dizer-se também um escritor.
-Mas,o amor é fogo que arde sem se ver
excelência; e o referido cabra usando possível palavra do João Cabral de Melo
Neto,não fala de amor.
-Amar,verbo intransitivo.O amor só precisa de
si mesmo pra existir,sem complementos.E ele ama o que faz,e faz bem.Por
favor,senhor juiz volte a dizer a sentença.Pediu Mário de Andrade.
-Continuando...Espero dessa vez não ser
interrompido por ninguém.Alguns gostam de usar a expressão Amor Líquido em referência a relações fugazes e tênues.Porém durante toda a sessão de hoje pude
perceber que a preocupação de vocês é desnecessária,aliviem vossos corações o
autor aqui presente ama o que faz,pretende continuar escrevendo por longos anos
e não pretende tomar o lugar de nenhum de vós,quer apenas exercer o talento que
acredita ter,e a mim não cabe julgar se esse talento existe ou não,estou aqui
apenas pra inocentá-lo do crime...Qual é mesmo o crime?Acredito que não havendo
circustância que caracterize ação criminosa posso dar ao réu a sua Redenção.
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