sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Era dos Loucos


Era meu dia de folga.E dessa vez aproveitaria o dia de uma maneira talvez inusitada e estranha pra muitos.
Ainda pela manhã tomei a condução que ia pra Tamarineira.A viagem era longa,o destino era bem distante de onde eu morava porém estava decidido.Pra quem não conhece, a Tamarineira é um bairro do Recife,no qual funciona um hospital psiquiátrico.E foi lá que decidi passar minha folga.

Adentrei pela primeira vez aquele hospital.Não sem antes observar as pessoas que circulavam por ali.Alguns vinham tristes,é mesmo bem triste ter um parente ou amigo nessa situação.Outros por sua vez vinham alegres,inebriados de loucura...Talvez a mais doce forma de lucidez.

Estava circulando em uma das alas quando ouvi gritos:
-Socorro!Vão me matar.

Eu sei isso é um hospital de loucos,muitos deliram ali,mas e se algum deles estivesse em perigo ou tomando choques elétricos como no século passado ou retrasado se fazia com os doidos?
Precisava "salvar a vítima".Ao chegar lá me deparei com uma mulher muito jovem,quase menina,não revirava os olhos como você pode tentar supor,muito pelo contrário...Seus olhos pareciam muito lúcidos,brilhavam de contentamento apesar dos gritos anteriores.

Sim eram dela os gritos.Naquele momento ela era a única no corredor.
Fiquei um tempo olhando-a.Era tão jovem,um pouco bonita,dizendo melhor:era muito bonita.O que fazia ali?

-Ora você pensa que só os feios enloquecem?Disse uma voz vindo de dentro de mim.

Fiquei atordoado.Será que eu também  estava enlouquecendo?Com tantos lugares pra ir num dia de folga e eu havia resolvido ir a um hospício?Era a caridade que me movia.Estava em dívida com Deus e com os pobres.
-Não seria curiosidade?Disse novamente a voz.
Balancei a cabeça pra espantar os pensamentos,sim aquilo deveria ser um pensamento,eu estava pensando alto só isso.Repeti várias vezes tentando me convencer.
-Você também está louco?Disse enfim a mocinha me vendo naquele estado de estranheza.
-Como assim?Eu não sou louco.A doida aqui é você.
-Eu sei.Você também não parece muito bem...
-Eu?Eu estou ótimo.
Não ficaria ali mais nenhum minuto.Corri pelos corredores,nem sei quanto corri nem pra onde corria dentro do hospital;a louca vinha atrás de mim junto com médicos e enfermeiros que por certo me tratavam como louco.
Veja bem leitor,preste bem atenção:
-EU NÃO SOU LOUCO.
Você me ouviu não ouviu?
Por sorte consegui escapar deles.Passei um sufoco,mas consegui.

Agora estava entre vários loucos.Conversavam muito alto.Discutiam política.Fiquei observando sem me aproximar.
-Jorge, você está errado.Dizia um deles,o mais alto.
-Como errado?Ora,na política meu caro,vale de um tudo.
-Como de um tudo?Onde ficam os valores?E o povo nisso onde fica?Interferiu um terceiro homem.
-Que errado nada.Eu mesmo quando era prefeito da minha cidade roubava,roubava mesmo,comprava votos também.Dizia o Jorge.
-É contra lei.Gritou Maria.É contra a lei de Deus e dos homens.
-Que Deus que nada!Gritou Leôncio.O mais alterado deles.Eu sou Deus.Eu faço as leis.
-Você Deus?Se você é Deus pois que eu sou Maria Madalena.Somos todos loucos.Você não vê?Isso é um hospício.
Ouvindo isso começaram a brigar entre si.
-Calma pessoal.Resolvi entrar no meio antes que algo sério acontecesse ali.
-E, você quem é?
-Ora não me reconhecem?Sou Deus.(Disse tentando invocar um ser de autoridade superior pra apaziguá-los)
-Você é um falso profeta dizia Leôncio,o que acreditava ser o próprio Deus.
-Amigos,venho em paz.Pra que reine a paz entre vós.Eu vos disse: amem  uns aos outros.Não lembram?
Alguns ajoelharam diante de mim.Outros mais desconfiados me olhavam de lado,sem se intrometer na conversa que viríamos a ter de ali por diante.
-E, então como vão todos?Disse eu.
-Como vamos?Vamos bem.Disse Maria.
-Bem coisa nenhuma.Retrucou o Jorge.
-O que há?Questionei.
-Ora,essa história de "como vai" não pega bem.Quase todos mentem.Estamos todos sempre bem uns pros outros,como numa tentativa de afirmação pra si próprio de que tudo irá melhorar ou que já está tudo nos eixos.
Fiquei estupefato com a explicação.Ele estava certo.
-O senhor foi prefeito não é?Perguntei.
-Sim fui prefeito da Tamarineira.
-Não sabia que era uma cidade.Pensei ser apenas um bairro do Recife.
-Ora,Deus com o perdão da palavra:o senhor está doido?
-Mantenha o respeito filho.Dizendo isso me despedi de todos.Tinha a intenção de sair dali o mais rápido possível.
Num corredor específico do hospital havia uma porta meio aberta.Fiquei ali escutando.
-Doutor,vim visitar meu filho.Mas,não o encontro no hospital.
-Senhora,ele tentou fugir essa manhã estamos todos de prontidão no hospital.Não há como ele fugir.Ele usa roupas credenciadas do hospital.Nosso pessoal é extremamente especializado e bem treinado.
-Oh,doutor o Pedro Neiva está cada dia pior.
Nesse momento a ficha caiu pra mim.Adentrei a sala e me entreguei.Eu era o mais louco,o mais alucinado de todos eles.

*Isso é uma obra de ficção que de nenhuma forma visa ofender os pacientes portadores de distúrbios mentais.O texto é somente pra ilustrar que muitas vezes o mais lúcido de nós é o mais louco,e o contrário também pode ser aplicado.
**Se quiser saber um pouco mais sobre o VERDADEIRO hospital da Tamarineira acesse o link:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hospital_Ulysses_Pernambucano

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Uma Grande Conversa


Chegou em casa pensativa.O dia havia sido muito desgastante.Os alunos estavam a cada dia mais crescidos e birrentos e o salário mais minguado.Sobre o joelho um caderno amarelo de capa gasta.Pertencia a um dos alunos.Devolveria na segunda.

Colocou o caderno sobre a mesinha de centro da sala e foi pra cozinha preparar o jantar.Comeu sozinha.Não era casada,não tinha filhos.Os pais de Lilian moravam noutra cidade,iria vê-los no dia dos pais.Ainda faltava um pouco.

Desligou todas as lâmpadas da casa.Certificou-se que todas as portas e janelas estavam trancadas.Voltou novamente à sala e sentou-se no sofá.Ficou ali sorvendo mansamente aquele espetáculo de escuridão,absorvendo pouco a pouco os elementos do ambiente:a escuridão e a calma.Adormeceu.

Mergulhemos então na mente de Lilian e saíbamos o que se passou essa noite enquanto sonhava.

-Onde estou?Disse ao se deparar no quintal de uma casa.
-Você está entre amigos.Disse um dos homens e completou:
-Venha conosco.
Eles atravessaram o muro coberto de musgo.
-Como vocês fazem isso?
-Isso é só um sonho.Não tenha medo.
Assentiu com a cabeça e entregando sua mão a uma senhora prosseguiu a excursão.
-Iremos fazer uma viagem.Disse a mulher.
-Não diga que tomaremos um ônibus em pleno sonho?
-Não será preciso.Comandaremos tudo com a imaginação.Não esqueça você está apenas sonhando...Isso é um processo normal:quando dormimos a mente se liberta um pouco dos problemas e inquietações e fica livre pra imaginar,pra criar coisas.Você cria coisas muito boas quando dorme.
-Eu?Indagou perplexa.
-Venha ver estas flores.Vê o quanto são belas?Você vem aqui todas as noites no jardim dessa casa e rega todas elas.
-Não lembro de ter feito algo assim.Raramente me lembro de sonhos.
-É que sua mente anda muito inquieta.Relaxe um pouco.Respire fundo.Agora pense nas coisas que você gosta,que você ama.
De olhos fechados a professora pensava nos entes que mais amava:os pais.os alunos...E em tantas outras coisas pequenas ou grandes diante do coração.
-Agora abra os olhos disse o homem.Veja o que te cerca.
Diante de Lilian e de todos os presentes viam-se imagens imperfeitas das várias emanações do pensamento dela.
-O que é isso?É assombroso.
-Quando nós pensamos nós criamos aquilo.De alguma forma isso tudo é real.Mesmo sem ser.
-E quanto as flores?
-Você costumava gostar muito de flores na sua infãncia...Lembra?Você está de alguma forma lembrando daquilo,cultivando suas memórias e trazendo-as para o presente,cultivando ainda mais flores...Hoje você cuida tão pouco delas.
-Moro em um apartamento,fico pouco tempo em casa,vivo uma rotina muito difícil...
-E, é pra mim que você vem dizer isso?Sei de tudo sobre você.
-Quem és?Um mago?Bruxo?
-Sou uma parte do teu cérebro.O teu subconsciente,quardo as tuas memórias.
-Hã?
-Bem vinda a vida querida.Agora que você já sabe como tudo funciona,que tudo que fazemos deixa pegadas,rastros,se posterioriza de diversas formas...Você bem que poderia nos dar um descanso de tantas preocupações,não acha?

O sol não conseguiu entrar através das portas e janelas trancadas.Naquele sábado Lilian dormiu  calma e longamente.Estava precisando.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Não é Preciso Dizer Adeus


Pegou os elementos rústicos e guardou-os no fundo de uma caixa.Olhou-se.Estava muito bonita,perfumada,penteada...Rodava  os anéis nos dedos como um bambolê.As meias eram novas,e a tiara bordada também era.
-Vamos.
Rute não se despediu de nada.Somente no futuro poderia dimensionar aquela partida,aquela ruptura com o sertão.
Os anos passaram-se,e nossa Rute observava do portão os filhos dobrarem a rua pra irem à escola.Um aperto no coração.Era a primeira vez que iam sozinhos.Estavam grandes.Quase adultos.
"Mentira".Disse pra si mesma.Eram apenas crianças.Daqui a pouco ligaria pra escola,queria ter certeza que chegariam bem...
Entrou em casa desnorteada,segurando-se nas paredes,sentou-se perto da janela.Estava preocupada.
-Rute!Gritou uma vizinha no portão.
-Agora não posso.Estou ocupada.
Continuou ali na janela vendo a vizinha ir embora.
-Que ocupada que nada.Ela estava era na janela vendo a vida alheia.Pensou a outra seguindo o caminho de volta até em casa.
As horas iam passando.Precisava por as coisas em ordem, fazer o almoço,tirar as roupas do varal,arrumar as gavetas...E foi dentro de uma gaveta que encontrou a caixa,limpou-a com um pano seco e deixou-a  na sala esperando a volta das crianças.Fechou a porta de casa.Saiu pra buscá-las.
Conversaram animadamente durante todo o caminho.Alexandre e Fernanda contavam pra mãe a grande aventura que tinha sido a primeira ida sozinhos até a escola.
-Fizemos como a senhora disse mamãe.Nada de conversas com estranhos.Disse Alexandre.
-Tenho duas surpresas esperando por vocês lá em casa.Disse a mãe sorrindo contente.
-Conta mamãe.Pediram os dois a um só tempo com olhinhos ansiosos pelas novidades.
Depois do almoço a primeira surpresa surpresa:
-O sorvete de abacaxi que vocês tanto gostam.Disse orgulhosa.
Enquanto as crianças se deliciavam com a sobremesa Rute pegou a caixinha e colocou-a no colo.
Alexandre sempre atento não perdia nenhum detalhe.
-Mamãe que caixa é essa?
-Venham cá.Aproximem-se.
Elas se aproximaram repletas de curiosidade.
-Que há aí dentro? Disse Nanda.
A mulher abriu a caixinha de madeira e lentamente tirou um a um os objetos,mostrando-os aos filhos.
-Um anel!Exclamou Fernanda com os olhos faiscantes.
-Era da mamãe quando ela era assim quase do seu tamanho.Falou Rute.
-Uma boneca de pano mano.Olhe o tamanho dela...Bem pequena.
-Uma sandália e que cheiro engraçado ela tem.
-É de couro filho,é o cheiro do couro.Foi minha primeira sandália.
Ficaram ali brincando durante toda a tarde com os resquícios da meninice de Rute.A saudade apertando no peito a cada brincadeira dos filhos.Era ela ali de novo,vivendo de novo,perpetuando-se...Uma forma de nunca dizer adeus...Como nunca soubera dizer pra sua terra.Nem sempre é preciso dizer adeus...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Por Favor,Uma Dose de Calma...


-Belos sapatos.Disse pra amiga ao se despedirem.
Clara ficou imóvel vendo a outra confundir-se na multidão; parecia alheia a tudo,como se nada mais tivesse importância.Deu uma volta,depois seguiu pra casa,depositou os pacotes das compras que fizeram no sofá,começou a abrir um a um os embrulhos.
"As compras vieram trocadas".Recolocou tudo no lugar.Devolveria as sacolas depois.Estava muito cansada.Remexeu as sobras de pão na cozinha,tomou um café frio.Escovou os dentes.Deitou-se e dormiu.

Horas mais tarde...
Trim.Trim.Desligou o celular sem nem ver quem era.Continuou dormindo como era de se esperar numa madrugada.
Estava quase amanhecendo quando ouviu baterem na porta.
"Quem será essa hora?" "Não vou atender,que espere até amanhã seja lá quem for".
Mas o tal seja lá quem for continuou batendo na porta.
"Que ódio!".Colocou outra roupa por cima do pijama e foi espreitar quem estava lá fora.
-Paula,o que você faz essa hora batendo na minha porta?Você está bem?Aconteceu alguma coisa?
-Você está com minhas compras...E eu vim buscá-las.
-E não poderia ter vindo mais cedo ou  ter esperado até amanhã?
-Tentei falar com você,mas você não atendeu.
-Já estava deitada.Desliguei sem nem olhar quem era,quis continuar dormindo.
-Mas eu não consegui dormir.Meus remédios ficaram nas compras que vieram contigo.
-Aqui estão.Confira.Disse tentando parecer gentil.A verdade é que estava detestando ter seu sono interrompido por aquela confusão.
Despediram-se.
Já na cama Clara não conseguia dormir.A outra parecia ter levado o seu sono com ela.
"Que fazer?" Ligou pra uma farmácia 24 horas e pediu um tranquilizante.
Não seria mais fácil se a amiga tivesse feito isso ao invés de vir perturbá-la?
Antes que o entregador chegasse dormiu...Daqui a pouco outra raiva: acordaria novamente pra receber os tranquilizantes...Ao menos eles cumpririam seu papel.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

"E no Meio do Caminho Havia..."


Essa manhã houve um grave acidente aqui na rua. Começava a narrativa o Gabriel, morador ilustre daquela cidade; o jornalista estava atento a cada palavra do homem, aquilo era uma situação muito peculiar.

-Pois, então senhor...O que o senhor disse que faz mesmo?

-Sou jornalista. Faço perguntas pra colocar na reportagem, quero contar pras pessoas o que aconteceu.

-Mas isso eu posso fazer. E melhor que o senhor, eu vi tudo, todo o ocorrido.

-Então “tá” certo, farei uma reportagem em áudio e vídeo, melhor do que só escrever a matéria.

Improvisou a filmadora que tinha no carro. Seria sem o câmera mesmo, fariam o trabalho, ele e o "seu" Gabriel. Levariam para o mundo a grande noticia.

O velhinho estava contente. Iria ficar ainda mais presente na história daquelas pessoas. O filho dos fundadores daquela cidade definitivamente marcaria seu nome na memória popular, ”sem falar a contribuição para o futuro”... E foi pensando em tudo aquilo, com os olhos luzindo de contentamento e espanto diante do equipamento do jornalista o senhor Gabriel ouviu:

-O senhor está pronto seu Gabriel?

O velhinho sorriu, sem dentes, olhos marejados pelo que iam fazer e disse:
-Pronto pra fazer história meu filho. Pra fazer história.

Nildo se aprumou todo, ficou bem sério e começou:

-Estamos aqui na cidade de Pirituba do norte divisa do nada com lugar algum, onde aconteceu "um acidente" fantástico, sobre isso o senhor Gabriel Oliveira Ramos que está aqui ao meu lado falará um pouco melhor. Seu Gabriel o senhor poderia contar pro Brasil todo o que houve por aqui?

-Claro, “nós não já tinha” combinado que eu ia contar?

-Sim, seu Gabriel. O Jornalista riu diante da sinceridade do outro.

-Então, pessoal o que sucedeu foi o seguinte. Como todo mundo deve saber Pirituba do Norte é uma cidade bem longe da capital do progresso, mas o caso foi que resolveram asfaltar a estrada principal. Foi uma felicidade só.

-O senhor poderia encurtar a história? Nosso tempo no ar é curto.

-O senhor quer que eu conte a história ou não?

Nildo, o jornalista, fez sinal pra que o homem continuasse a história.

-Como eu ia dizendo minha gente... O pessoal "tava" muito feliz com o asfalto... Mas no primeiro carro que passou em alta velocidade aconteceu um acidente horrível. Da metade da estrada pra lá, disse isso apontando pro local depois da passagem do carro, a cidade se elevou toda parecendo uma montanha. A terra lá tá escorregadia, o povo não pode descer pra cá, nem quer ficar lá
.
Nildo apontou a câmera para o local do "acidente".
-É algo surpreende e de proporções assustadoras o que aconteceu aqui, uma cidade quase toda sair do lugar. O que a população acha que pode ter sido a causa seu Gabriel? O movimento das placas tectônicas?

-Olhe o senhor me respeite. Sou um pai de família, nasci e me criei nessa cidade fundada por meus pais, não tenho nada a ver com “essas tal” de placa tectônicas não.

-Se acalme seu Gabriel. Estamos no ar.

-Que ar coisa nenhuma. No ar estão eles lá, olhe lá em cima no "arto", na montanha que aquele asfalto vagabundo formou.

sábado, 10 de março de 2012

Marcas de Batom


O tom ainda não é esse. Experimentaram cores e mais cores, até que a mais velha pegou a mais vibrante e disse:

-É essa. Essa que você usará.

A outra estava pálida diante dela, usava uma blusa branca, calçava chinelos simples, eram pobres, não pelos trajes, mas pelos fatos que vêm a seguir.

-Olhe pra mim e veja como deve fazer, como olhar, e se portar diante deles... Falando isso riu ridiculamente, soltando beijinhos em pleno ar.

A outra via tudo tristemente, entendia aquilo de forma ainda muito rudimentar, tinha então nove anos, a outra deveria ter uns 12 ou 13, contava dois abortos como triunfo daquela vida que a mais jovem criança viria a adentrar.

Saíram pelas ruas escuras e estreitas, tétricas figuras passavam por ali. Tinham medo, Sara a mais nova estava aterrorizada.

-De que tens medo? A mais velha sorriu ironizando, pois ela também sentia medo.

Outras mulheres circulavam pelo local, criaturas tão jovens estavam tão velhas e gastas como o vestido dourado esmaecido de uma delas, humanidade tenha um pouco de piedade dessas mulheres.

Uma criatura estrábica aproximou-se das nossas meninas, olhou-as com maldade, uma maldade suja e vil, se fosse possível prendê-lo naquele momento... Não havia polícia nas ruas, não ali.

-Aqui está ela. Como prometi. Disse o verme pra outra criatura asquerosa com a qual confabulava. Dizendo isso apontou pra Sara. Leve-a consigo e traga daqui uma hora, quero pagamento adiantado.

-Não pago.

-Ou paga ou não leva. Gritou puxando a arma pro outro.

“Amabilidades” acertadas levou a garota consigo. E o que ocorreu meu Deus, fechei os meus olhos pra não ver, tapei os ouvidos pra não lhes escutar os gritos, mas a minha consciência não me deixa largar a pena, preciso contar-lhes...Levou-a consigo arrastada pelos bracinhos finos, toda ela era uma tênue corda de trapezista, e ela estava a minutos da queda fatal.

A irmã mais velha, encolhida, a metros de distância daquilo, chorava baixinho, cabeça escondida entre as pernas, o corpinho tremia e ofegava impaciente. Não rezava, não gritava, apenas grunhia. Era um animal.

Cambaleante preparava-se pro salto mortal, pra algo completamente desconhecido. Olhava pra baixo e via o abismo diante de si, era tão alto, ela sentia tanto medo... Só o corpo dela estava ali, a sua alma vagueava diante daquele abismo que era a situação na qual se achava.

Clara, a mais velha, num lampejo de compaixão e lucidez correu até a cena dantesca prestes a consumar-se, atirou-se sobre o monstro que tentava cruelmente usar sua irmã como um dia fizeram com ela...E era tão cedo, foi há tanto tempo...Havia sido levada pelos próprios pais, era tão jovem, tão criança, tão...Já não pensava mais nada, via apenas a face do homem diante de si, lutando contra ele, numa luta desigual e infame, desferia-lhe mordidas, que ficavam como nódoas misturadas a batom barato na pele dele.

Os outros que também estavam na rua fugiram, uns pra não pagar a “corrida”, outras pra levar uma vantagem, por mínima que fosse. Ficaram apenas as duas ali contra ele... Mortas ambas de pancadas, por um monstro... Corpos estendidos numa rua qualquer... Eram e ainda são as marcas de batom... Marcas da prostituição.

Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração contra Crianças e Adolescentes – Disque 100
O Disque 100 funciona diariamente das 8h às 22h, inclusive nos fins de semana e feriados.
Por favor,não passe trotes.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Melhor Presente

Conto feito para Elen Alcântara:que tu,menina, continues a gostar das letras e da magia das palavras.


-Aqui está o teu presente filha.

A garota saltitante,correu e abraçou a bondosa senhora.Não era mais uma garota e sim uma mulher,e ali diante dela estava uma senhora mais perto do fim do que do começo da vida,mas o que importa?

Olhou o presente curiosa como se ainda fosse aquela menininha de outrora.Balançou a grande caixa,cheirou...Por fim rasgou o embrulho,tão bonito.

Dentro da caixa havia uma menor,que coisa!!Já havia visto essa cena antes,várias caixinhas,uma dentro da outra,como a esconder um precioso segredo,o que estaria ela reservando a si?Uma rosa?Uma jóia?

Continuou sua "jornada",a cada segundo mais curiosa.

A velha senhora ria contente.Os olhinhos de sua "criança" brilharam de contentamento ao ver o presente:

Um minúsculo quadrado.Seria um cubo mágico?

A mulher adivinhando-lhe os pensamentos disse:

-É um cubo mágico.

-A senhora sabe montar?

A outra deu uma gostosa gargalhada.

-Este é diferente.Clélia tomando o objeto das mãos da filha, abriu-o:

Eis que diante de ambas revelou-se o lindo cenário da poesia.

-O que quiseres de bom pra si e pro mundo,com o cubo criarás.Mas lembre-se:crie somente o bem.

Envolvidas pelo momento abraçaram-se."E a poesia daquele momento inundou suas vidas inteiras".

Abaixo Poesia de Drummond,O grande,O mestre de todos nós.

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever.

No entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Caixinha de Música


*Conto feito pra Lúrian Sodré:por sua paixão pela dança.O vídeo acima é da música Bandolins (Oswaldo Montenegro)



Adentrou o lotado teatro municipal, havia muitos conhecidos... E ele era um deles. Deu um passo pra frente como uma sílfide*, contemplou e cumprimentou a plateia. Estavam todos ansiosos pela estreia daquela noite, seria a consagração ou o desastre completo da nova primeira bailarina.


Vê-la dançar era como admirar a beleza da garça ou a elegância do cisne, e ali diante de um dos espectadores daquela cena maravilhosa algo inusitado ocorreu.

Diante dele uma velhinha muito sábia colocou-lhe nas mãos o pequeno objeto, ele aproximou-o dos olhos... Parecia incrédulo: de repente a bailarina olhou-o desafiadoramente, parecia cansada e triste. Admirado daquela cena o cavalheiro ousou num lance mágico dar corda a bailarina da caixinha de música, era o objeto que possuía nas mãos, para que ela voltasse a bailar, e fez-se também seu partner para que com ela pudesse dançar... Aquela valsa... Ela rodopiava em seus braços com graça e maestria, levava o próprio coração na ponta das sapatilhas.

*Sílfide: mulher esbelta, delicada.

Obs: Aqui há um misto de realidade e ficção onde os personagens dessa história ultrapassam o limite físico e ingressam no mundo mágico da arte, transcendendo os limites da realidade e do sonho.