sexta-feira, 5 de julho de 2013

Zuza


(Imagem retirada do blog: Fazendo a nossa festa colorir)

-Filó, cadê o Zuza?
-Deve está lá fora brincando.
-O céu tá todo armado. Acho que vai chover. A voz era rouca como se cada palavra tivesse saído com muito esforço das entranhas daquele homem. Roberto era considerado entre os seus um bom pai de família; nunca havia deixado faltar nada para a mulher ou para os filhos: Zuza e Raquel. Em verdade ele era mesmo um bom pai e nutria verdadeira adoração pelo Zuza, via naquele garoto a continuação de si mesmo, uma maneira de perpetuar-se através do tempo, faria dele um grande homem: fiel a seus deveres e compromissos. Além de pai e esposo Roberto era um brasileiro fanático pela pátria de chuteiras, destes que já não há.
-Zuza, oh Zuza! Entre meu filho. Você não tá vendo que vai chover?
-Já vou mãe. Pera mais um pouco.
-Entra agora.
-Mas mãe o jogo tá...
-Nem mais nem meio mais Zuza. Dê tchau aos seus colegas e entre logo. O jogo pode ficar pra outra hora.
-Poxa mãe! Logo hoje que eu ia passar o Zinho na artilharia do time?
Filó fazia-se de surda. Que negócio é esse de artilheiro de time? Filho seu tem é que estudar, por a cara no livro: ser um grande homem.
-E aí filhão? Como foi o jogo?
A partir daí foi um converseiro sem fim sobre a pelada daquele dia, ou sobre o baba como se fala aqui na Bahia. Mas antes de baianos eram brasileiros, adoravam futebol, aliás: os homens da casa gostavam, as mulheres preferiam a novela.
-Roberto, deixa o menino em paz. Para de encher a cabeça dele com isso de ser jogador de futebol, você é um alienado. Não se vive de futebol.
-Como não se vive? Neymar, Fred, Rivaldo e outros e outros mais por aí vivem de que se não é de futebol?
-Estou falando de vida normal.
-E que há de anormal nisso?
-Nosso filho tem é que estudar, ele precisa é se mirar mais no exemplo da irmã. Já viu como a Raquel é estudiosa? Vai ser veterinária, ela já te disse isso? Não né? Você nem olha pra ela. Vive pro Zuza e pra esse seu sonho idiota de fazer dele um jogador.
-Isso não é verdade. Sou um bom pai e você sabe disso.Só que a Raquel não precisa de mim como o Zuza.
-Deixa eu adivinhar! Ele precisa dos conselhos de um jogador de futebol frustrado que nem você? Sabe qual é o teu problema? Você queria ter nascido um Roberto Dinamite, mas fazer o quê? Ele nasceu antes de você, paciência meu bem. Disse Filó irônica enquanto batia no ombro do esposo.
-Quanta bobagem!
A discussão ia longe. Havia ultrapassado o jornal. Já estava na novela das 9 e nada. Até que o Zuza aproximou-se e disse:
-Sabe pai? Não quero mais ser jogador de futebol. Quero fazer novela que nem aquele ator. Ser protagonista ao lado de uma atriz bonita que nem aquela, olha lá.
Roberto estava decepcionado com o Zuza. Filó porém exultava. Havia vencido o marido.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

Natércia

Hoje Natércia deu seu último mergulho naquele mar,pela última vez pisou a areia branquinha e fina que teimava em se meter entre os seus dedos.Deitou-se na praia.Ficou olhando as nuvens de dentro do seu chapéu vazado.Uma proteção e um esconderijo.
Em poucos dias mudou-se pro interior do estado.Pessoas diferentes,hábitos também.Sotaques carregados,acabou viciando naquilo rapidinho;falava arrastado agora.As roupas eram mais simples,os cabelos menos emperiquitados. Não estava menos bonita.Era apenas mais natural.Aquele ar doce e quente da nova terra penetrou todos os seus poros e ondeava levemente a barra do vestido verde que usava aquela tarde.
-Natércia!Alguém chamava lá longe...Tão distante.Quase inaudível.
Chamavam-na repetidas vezes.O som daquela voz era profundo e trazia lembranças comoventes.
Virou-se.Estava tão diferente.Quando nossos olhos se cruzaram os mortos ressuscitaram no cemitério,e a louça antiga voltou a ser bela.
-Natércia!Não cansava de chamar-me a todo instante.Havia me seguido até ali.
Mirou-me  muito seriamente.

domingo, 21 de abril de 2013

Mais uma Queda




Juliana estava de joelhos aos pés do altar. Orava. De sua parte também compenetrado, porém em questões mundanas o padre a olhava. Aquela mulher era uma bela ovelha: tão entregue, absorta, completamente apaixonada pelas questões do céu. Os cabelos caíam-lhe abundantemente pelos ombros cobertos, ela era todo recato: físico e espiritual. Seus lábios carnudos, cheios de amor... Eram um convite.
-Está no horário de sua confissão. Vamos filha?
Não muito longe dali ouvia-se:
-Aleluia senhor. Deus seja louvado e para sempre glorificado. Em nome do senhor.
-Amém. Disseram outras ovelhas. Estas evangélicas.
Após o culto e coleta das ofertas da noite. O pastor fechou-se em seus aposentos particulares contando as somas. Separando apenas uma ninharia para as obras da igreja. Os pobres... Pra que os pobres mesmo? Ah, par dar o óbolo da viúva, que dentro de sua imensa pobreza ainda assim reuniu condições para ajudar o seu próximo. Oh, pobre viúva! Pobres homens e mulheres que ao invés de encontrarem um pastor de almas encontraram um grande banqueiro.
O céu crispou-se de nuvens negras, Lúcifer caiu dos céus arrastando com ele um terço dos anjos. Em meio aquela escuridão rajadas de fogo cruzavam o horizonte indefinido das almas humanas, a queimar, a arder em suas paixões mundanas.
-Senhor! Senhor. Piedade para as almas humanas.
O altar católico ruiu. A imagem de Cristo chorou sangue diante da profanação que aquele padre orquestrou contra e com Juliana.
-Sua pele é tão macia. Cheirosa.
-O senhor não deveria fazer isso. É contra as leis de Deus e da igreja.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Um Sol Nasce.Outro Morre.


-Um minuto, por favor.Era meu amigo Vinícius ao telefone e eu queria me certificar que a nossa conversa não seria ouvida por ninguém.Foi por isso que dispensei todos os presentes, que naquele instante se compunham de um séquito de primos e um gato.Sim, até do gato queria estar livre, pra falar das coisas mais banais  ou das mais importantes sem ser escutado.
-Pois, é meu caro.É exatamente o que eu te disse: minha mulher vai ter um filho, está grávida.Não é ótima a notícia?
-É, sim.Disse eu.
-Que é isso rapaz, você não tá alegre?
Quem nos ouvisse a conversa talvez não pudesse crer que éramos ambos apenas amigos, falando a verdade éramos mais que isso, éramos irmãos.
-Pra que fique decretado o quanto estou feliz, peço a você e a sua esposa que façam da criança que virá meu afilhado, irei batizá-lo.
-Pois considere acertado desde já.Esperamos você em nossa casa amanhã pra almoçar, vamos comemorar com mesa farta a vinda do nosso primeiro filho.
Sozinho adentrei aquele lar, no qual estavam reunidos amigos de minha verdadeira estima.Enquanto conversávamos animadamente esperamos por Laura.Era a aparição mais aguardada daquela manhã.
-Ela está no banho.Daqui a pouco estará entre nós.
-Garanto que estamos todos ansiosos pra vê-la e abraçá-la por essa tão grande boa nova.
Os presentes assentiram com a cabeça concordando.Da cozinha vinham cheiros convidativos ao paladar. Eu estava faminto.
Quando dei por mim lá estava Laura diante de todos nós, cercada de elogios, paparicada por todos, como não poderia deixar de ser.
-Mana, dê um abraço.Disse eu estendendo-lhe os braços.
Ela retribuiu amorosamente,naquele instante senti o quanto ela estava feliz com a nossa presença pra que compartilhássemos da sua felicidade.
Enquanto almoçávamos eu não me pude furtar de observá-la, não perdia um só movimento; meus olhos pulavam dela pra Vinícius, pensava no quanto eram felizes;  e como eu seria também feliz se pudesse ter filhos, se tivesse muito tempo de vida.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Pecado Original


Apanhou a flor, apanhou o amor que ele lhe dera gota por gota, era pouco. Gostava de banhar-se em cascatas de cachoeiras grandiosas, beijada e amada por peixes, por todos os deuses. Espiada pela Lua, adorada pelos Sóis. Era o canto mais suave e mais impetuoso da natureza: uma mulher, a minha mulher, artigo definido e possuído por mim.
Morreria pra satisfazer cada um dos seus caprichos. Tudo bem não sou sagitariano, nem tão pouco sou regido por qualquer signo zodiacal.
Chegarão amanhã minha arqueóloga e seu “pupilo fóssil’’.
Desembarcaram ambos, trazia-o preso a sua mão pequenina e macia aquilo que alguns ousariam chamar de mão.
-Meu Deus!Será que precisava tanto empenho?
-É meu trabalho.
-Trazê-lo pra morar conosco faz parte do seu trabalho também?
Deu de ombros deixando-o resmungar sozinho, observando aquela cena dantesca, era um delírio só poderia ser; alguma ingestão acidental talvez... O que poderia tê-lo envenenado?
-Não seja criança e trate de acordar desses seus devaneios. Como você fantasia; sabe qualquer um diria que sou sua mãe. Comporte-se como marido hein?!
-Essa é boa!E o que tenho sido então senão um pra você?
Já estava correndo atrás dos dois; a esposa e o ilustre acompanhante andavam rápido em demasia.
Gostaria de descrevê-lo. Não encontro termos apropriados em linguagem humana. Direi tão somente que é um resquício da primeira leva hominal, se é que é um termo apropriado.
Havia encontrado o Adão da ciência; seria altamente condecorada, teria as maiores honrarias e privilégios da Terra; seu séquito de seguidores seria ainda maior. Viu-se cortejada pelo Sol em todo esplendor e arrogância, eram iguais.
Aquele ser assustado e assustador observava-a trocar as vestes intrigado. Estava tonto da viagem, a memória razoavelmente afetada pelo tempo. Mas sabia plenamente com que tipo de gente estava lidando ,afinal, eram da mesma espécie, graças a esforços de seres como eles tinham progredido e civilizado. O raciocínio era parco, mas o instinto não o trairia.
O Novo velho homem passava por testes clínicos periodicamente, testes de reflexo, acuidade visual, e primordialmente todos as investigações relativas a mente e sua funcionalidade;foi confirmado que o crânio humano expandira-se com o passar dos séculos, entre outras coisas.Eram minuciosos e frios,extremamente detalhistas em tudo quanto pudesse servi-los;tinham em seu poder um espécime único, a coisa mais surpreendente da natureza humana sobre todos os aspectos,questionava-se sua moralidade,seus modos,sua existência paralela ;embora mostrasse claros resquícios de inteligência parecia alheio ao circundante,era primitivo.
-Eureca!Eureca!O eco das próprias palavras ainda fazia ruídos dentro de si.
-O que descobriu?
-Parece um homem congelado, e digo mais: aparentemente em ótimo estado de conservação, mirava-o com interesse, era repugnante, mas tinha olhos muito vivos pra alguém que estivesse congelado há tanto tempo, aquilo atraiu sua atenção, seu desejo de desvendá-lo. Quando se puseram a desvencilhar o objeto em estudo do gelo, ele verdadeiramente eclodiu,nasceu, nasceu da forma mais inusitada. Não pronunciava palavras a principio entendíveis, emitia somente sons guturais, aos poucos a comunicação foi se estabelecendo entre ele e membros da equipe, principalmente com sua ilustre descobridora; uma mulher diabolicamente divina, alguns suprimiriam o artigo divino...
Ao financiador da expedição:
-Quanto me daria por um “ser” como esse?
-Ah!Querida pense no bem da comunidade cientifica.
Um ranger leve na porcelana dos dentes quase os trincou por completo, um jeito nos cabelos, levanta se aproximando dele.
-Precisarei de você meu amor.
-Como sempre,não é?
-Tem valido a pena, ou não?!   
-Não sei.
-Pois te digo!Depois que assumi o comando das expedições que financia, seus lucros empresariais são cada vez mais vultosos, seu dinheiro é aliado da minha competência.
-Sempre modesta!Minha parceira perfeita, em tudo!
-Acho que eu não seria tão categórica quanto tu és nessas afirmações...
-Remorsos das explorações clandestinas?
-Jamais, falava apenas doutras coisas. Agora preciso ir meu embarque é pra logo, ou estou lá ou fico aqui nesses confins.
-Fique comigo!
-Por que confundir sempre as coisas?
-Ofendida Madona?
-Sim ,por certo. Deixe-me por obséquio.
-Achei que até alguns instantes era seu amor, como sois frívola.
-Tenho senso de oportunidade só isso.
-Quando enfim dormirás nos meus braços?
-Adeus!Espero sua contribuição na conta de sempre, afinal o que nos une são apenas negócios, escusos, mas ainda assim negócios.
Viu as harmonias do talhe se esvaindo por entre as espirais das escadas, adorava contemplá-la nesse estado de mulher ferida e distante,um dia venceria aquele orgulho.
Em casa...
-E então Carolina como foi o seu dia com o nosso hóspede?Depositou em seus lábios róseos o  beijo costumeiro: -Amo você querida!
Estava alheia aquela afetuosidade, lembrava-se doutras coisas mais importantes, não poderia, não agora, prescindir de tino e agilidade de movimentos, uma raposa perfeita, ardente de desejos não consumados e inconfessáveis.
Olhou-o com ternura, tinha pena dele, tão apaixonado; seguiria até o fim naquela farsa, fingiria amor e “ais” repassados de saudade quando tinha apenas pena. Pena de quê?Não sabia ao certo, talvez fosse algum grito de consciência rouca. O fato era: um marido fazia-se necessário, sua postura de mulher honesta, bem casada, reputação inatacável por todos os aspectos precisaria ser mantida a qualquer custo e nada melhor do que um casamento como aquele com um homem de virtudes inquestionáveis; suas lavagens de dinheiro junto ao financiador jamais seriam descobertas. Quanto a amantes?Não teria estômago pra tanto, era preferível viver em castidade espiritual por que física já não era possível com um esposo tão devotado quanto o que possuía.
Olhos rasos d’água:
-Senti tantas saudades de ti querido o dia foi tedioso, sabes que ainda não tenho feito muitos progressos com ele. Enlaçou o seu pescoço com carinho, sussurrou baixinho no ouvido dele “estou cansada, poderia me levar pra cama?”, e aquilo era a senha pra tudo quanto ela sonhara conseguir dele, sua fragilidade encantava-o embora não fosse genuína.
Ele era puro e bom, via sua deusa, sua senhora, ou dona como queira, quiçá mestra; esse sim é o termo mais apropriado, como uma sílfide, dotada de qualidades admiráveis,adorava dedicar-lhe predicativos sempre ostentados com verdadeiro frenesi por sua rainha.Comandava cada um dos súditos de forma especial,única, como ela mesma.
“Todos querem sentir-se amados, indispensáveis ,e é importante cultivar neles a vaidade, sufocar o que poderia afastá-los de sua nefasta influência.” Seria eu tão má assim?Quisera somente o meu quinhão de felicidade terrena. Não matara, não causara intrigas, respeitava pai e mãe, guardava o sábado indo as missas com freqüência usual, não cobiçava o homem alheio,enfim ,seguia razoavelmente bem o decálogo:seu mais alto pecado era roubar.Fazia-o sem muitos escrúpulos.Gostava do poder e dos seus meandros, utilizava-o pra chegar onde queria,não tinha lá muitos limites sua ambição.Venderia os pais?Os dela não, mas os seus sim leitor, portanto cuidado!Mantenha distância calculada.
Dormia com a cabeça repousada no seu seio alvo e palpitante. Gostava de cismar sobre aquele homem e sobre si mesma. Dentro do seu peito havia um casebre que destinara a ele, era a porção de amor que lhe cabia, sim, naquele instante ao vê-lo dormir consigo tão entregue e vulnerável, amou-o deveras, não tanto quanto ele merecia, mas já era algo: um casebre. Contudo isso não foi suficiente pra impedi-la de leiloar um ser humano em praça pública, tal qual escravo; o ser mais antigo da humanidade encontra-se exposto nas galerias mais famosas do mundo, arrebatado por incalculável fortuna: ganhara-o de presente de um admirador secreto,possuía título de propriedade sobre o animal, podia vendê-lo ou explorá-lo quanto quisesse.Seu nome permaneceu incógnito,jamais pronunciado em transações, o esposo esse um coitado, um infeliz, jamais suspeitaria de tal primor social e conjugal.
Desfilava seu amor próprio numa das galerias mais famosas do mundo. Agredida e morta pelo selvagem; tinha afinal o orgulho vencido, não por um homem como o de outrora, porém por um animal tão primitivo quanto ela. A eterna revolta da criatura!
Seus instintos de aço haviam sido preservados sobre uma espessa camada de gelo por séculos, milênios a fio, impossível o Adão histórico ser enganado por uma Eva qualquer, tudo nela exalava os mais torpes sentimentos, o seu parco amor medrava, sufocava-se no lamaçal que era sua alma.
O perigoso ser sofreu um processo de recongelamento, a misérrima criatura viu na arqueóloga os instintos mais baixos, compartilhava todos eles numa época tão remota, tão presente e vanguardista.
Um dia o homem adâmico abriu as pupilas ressecadas, diante de si havia uma rosa desabrochando em pétalas douradas, douradas de amor.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Pavilhão 7


Ênio estava trancado em uma cela 2x2, respirava com dificuldade,sentia um calor infernal.Não recebia visita de parentes ou induto de natal.Com ele poderíamos contar 5 presos na cela.Dormiam por turnos,enquanto os outros ficavam de pé vigiando ou morrendo,fosse de sede ou de solidão.Ali era o lugar mais temível pra se viver.Todos bandidos,cada qual havia cometido algo pior que o outro.
Naquela noite Ênio não dormiu,pensava nas filhas e na mulher sozinhas em casa.Teriam o que comer uma hora daquela?Que horas seria lá fora?Lá dentro não havia horas,passavam-se dias,meses,anos;não sabia ao certo quanto tempo estava ali,o advogado não aparecia há muito tempo...
-Condenado por tráfico de drogas.Foi o que ouviu no dia da sentença do juiz.
....
-Quantos anos você ainda fica aqui dentro?
-Não sei...Seus olhos não saberiam mesmo responder quantos anos ainda teria pela frente;os anos de condenação ele sabia,mas quanto havia cumprido de pena ou quanta restava cumprir ele não sabia.
-Você devia marcar na folhinha.
Ênio não respondeu,ficou ali com seus pensamentos.Seus dias estavam contados,poderia ser morto a qualquer momento por algum rival ou mesmo por alguém na cadeia.Havia muita gente disputando seu ponto de tráfico.Fugiria em breve,a solução seria fugir.
A rebelião teve inicio num dos dias de visita.Com "inocentes" lá dentro o apelo seria maior.Mais uma vez suas filhas e sua mulher não estariam ali,foi a única vez que isto o fez sorrir.
Em casa Lurdes e as meninas não tinham grana nem pras necessidades básicas.As crianças eram tão pequenas ainda...Não saiam pra pedir comida ou dinheiro,viviam ali dentro daquela pequenina prisão na qual havia se convertido a casa.Sentadas na cadeira,tinham as cabecinhas repousadas sobre a mesa,numa tristeza cruel,amarga.Não havia como sair dali,o medo era maior.Ênio e sua família estavam jurados de morte pela facção rival.
-Lurdes!
Era Ênio entrando em casa.Havia conseguido fugir.
-O que faz aqui?Disse a mulher assustada diante da cara de poucos amigos do marido.
Ênio sacou o revólver e atirou.Primeiro na mulher,depois nas filhas.Quando a polícia chegou encontrou apenas a carnificina.
Fugiu sozinho pois já não havia consciência ou fardo a ser carregado.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Nunca Saberás


Era noite e eu caminhava por entre os muros do castelo.Pisava as folhas de outono amarelas e secas,o tempo estava fresco e me convidava a sonhar.Eram sonhos de menina ainda:tecidos,rendas,pequenas prendas mimosas...Ele m'as daria?
Entre sonhos doces senti seus passos,acordei de súbito de meu devaneio.
-Há alguém aí?
Podia ver sua sombra projetada na muralha do castelo.Não houve respostas, no entanto,a sombra caminhava pra mim,aproximava-se lentamente e eu como que pregada ao solo não conseguia fugir,gritar,fazer coisa alguma que me pudesse salvar.Em breves passos estava diante de mim,tomou minhas mãos frias entre as suas,levantou a face,era um cavalheiro mascarado.
Não falava coisa alguma olhava-me apenas,mantinha minha mão entre as suas e eu abaixava os olhos rubra de vergonha e medo.Não sei quanto tempo estivemos ali,mas o fato é que sumiu da mesma forma como apareceu.
Um pouco tonta e fatigada pelas emoções que me dominavam adentrei a fortificação.No quarto a criada me despia e eu pensava apenas:
-Quem és?Quem és que atravessas o meu destino dessa forma?Por acaso desconheces que sou filha do rei?Que não se aproxima duma dama dessa maneira furtiva e sombria?
Não estava em mim.Doutra forma ele não me teria tocado.Decerto foram os sonhos,os excessos de sonhos de moça...
No dia seguinte conversava com mamãe no nosso terraço predileto.Ela me falava dos preparativos do  meu casamento.
-Quando conhecerei meu noivo?
-No dia de seu casamento.Diante do altar.
Meus olhos tristes vagavam pelas colinas vastas que cercavam o castelo.Também ele era um cavalheiro que tomaria minhas mãos entre as suas,e assim como o outro este me parecia mascarado.Afinal,qual diferença?Se de nenhum dos dois conhecia os rostos,o gênio...

Mamãe parecia tentar invadir meus pensamentos.

-Tire essas ideias da sua cabecinha Marina.Olhe as colinas que nos cercam...Além delas há tantas outras:elas também serão suas com o casamento.Seremos um só reino,selaremos em definitivo a nossa aliança.
Nos dias posteriores ele parecia seguir-me de perto.Sentia seus olhos nos campos,nos bailes,sentia-me observada em todos os lugares,no entanto desconhecia sua face.
A casa segundo passado ansiava por vê-lo novamente.As horas distantes eram um martírio imenso.
Estaria casada em poucos dias.O destino era certo.
Mas em algum lugar alguém parecia tramar uma fuga.Era ele.O cavalheiro mascarado apareceu novamente e me levou com ele.
Nunca vi sua face.
-Deixe-me vê-lo.
-Quem eu sou?Tu nunca o saberás.Apenas estou contigo e tu estás comigo.Será meu segredo.
Vivemos anos sem que eu soubesse sua verdadeira face.Era sempre muito cuidadoso e não permitia que eu o expiasse sem ela.
Muitos anos após sua morte eu vivia do pequeno armazém que ele deixara a mim e ao nosso filho Alberto;tirava umas rendas da caixa pra mostrar as senhoras quando ouvi:
-Pois é Filomena dizem por aí que a Princesa fugiu pra não casar-se com o Príncipe;porém o mais entranho é que ele também fugiu.Não há vestígios nem de um nem de outro.
-Deve ter fugido com alguma amante.Sussurrou Filomena.

Porém em minhas lembranças ainda ecoavam as suas palavras:
-"Nunca saberás"
Agora eu sabia.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jogo de Espelhos


-Tina,iremos na casa de sua prima Emília.Vista-se logo.Estou com pressa.
Em pouco tempo estavam na sala prontas pra sair.
-Vamos logo não quero chegar tarde.
Na casa de Emília um quase monólogo se instalava.
-Li esse livro há anos.Tome.Você vai gostar.
-Ah...Obrigada.Disse Tina tentando sorrir.
-Há também esses Cds,Dvds...Você vai gostar.
-Guarde mamãe.Disse Tina.
Emília passeava por todo o quarto, parecia extasiada.Gesticulava demais,falava alto.
-Como eu ia dizendo pra vocês: Roberto e eu mandamos ampliar a casa pra quando as crianças chegarem,e depois também temos os parentes,e no futuro os netos pra que preencham esses novos espaços.
-Oh,mas venham comigo pois está na hora do lanche.Devem estar com fome...Pudera vocês moram tão distante...Fico feliz que tenham vindo me ver.
-Também estamos felizes não é Tina?
-Claro mamãe.
-E,então estão gostando do lanche?Posso mandar preparar algo pra levarem na viagem de volta,vocês moram tão longe...Sentirão fome no trajeto de volta.
-Prima Emília você nunca foi em nossa casa, do contrário saberia que não moramos assim tão longe.De qualquer forma agradeço a gentileza.
Era mesmo verdade: Emília nunca havia visitado a prima.Não eram assim tão amigas,mas era preciso recebê-la,ser sociável.
Tina achegou-se ao ouvido da mãe e disse:
-Vamos embora mamãe.A prima Emília é muito chata.
-Não fale assim filha ela te deu tantos presentes.
-Não pedi nada.Ela deu por que queria aparecer,se mostrar bondosa.
Emília ouvia tudo calada e fingia não ouvir,porém afirmava pra si mesma que aquilo era verdade.
As visitas levantaram e anunciaram a saída.
As mulheres se abraçaram sem nenhum afeto de parte a parte,cada qual ali queria o seu quinhão:uma queria apaziguar os próprios demônios fazendo-se bondosa,ainda que falsamente.A outra ia comer da melhor comida que havia na mesa de toda sua família.E,por fim,temos Tina que desejava ocultamente tudo aquilo,pra depois desdenhar dos presentes.
Era começo de noite,mas estranhamente fez-se luz:
-Prima Emília..
-Diga Tina.
-Não gosto da senhora.
A mãe de Tina não sabia onde por o rosto.
-Filha..
-Não me puna mais mamãe.Acho que passar a tarde diante dessa senhora esnobe já é castigo o suficiente.
-Pois se querem saber - dizia Emília - Eu que não aguento mais as visitas de vocês duas.Só sabem sugar,nenhuma vem aqui pra saber como eu estou ou o que penso.Querem apenas presentes e boa comida;e não pensem que eu não sei que falam mal de mim mesmo quando ainda estão em minha casa.

Enfim caíram as máscaras.Estavam limpas diante de si mesmas e das outras pela primeira vez na vida.