sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Tardes de Agosto

Alice e Miguel, mãe e filho, haviam mudado pro bairro Alameda dos Ipês há pouco tempo... Naquela época eles eram muito comuns por ali. Dos roxos aos amarelos eles enchiam a vista de todos que ali passassem.
O garoto contava então quase sete anos, curioso que era estava quase chegando na idade da razão, vivia até aquele momento sua primeira infância.
-Miguel que tanto você olha na janela?
-Nada mamãe.
-Todo dia de tardezinha você fica aí parado, deixa de estudar ou brincar, sempre as mesmas horas pra vir olhar a janela.
-Gosto de ver as pessoas passando.
Pequeno que era ele ficava na pontinha dos pés observando aquilo que era seu alento o seu amor. Havia posto seu nome de Laura. Era mesmo linda. Qual seria seu verdadeiro nome?
Laura era morena, cabelos negros e cacheados sobre os ombros, aparentava ter a mesma idade do Miguel. Ficava ali também nas mesmas horas, parecia sempre olhá-lo. Costumava acontecer de Alice chamar o filho ou esse distrair-se rapidamente com algum pequeno brinquedo ou passante, o fato é que ao retornar ela já não estava lá e o seu peito infantil se comprimia em saudades.
Depois de uma ou duas semanas a mãe do Miguel começou a notá-lo cada vez mais distraído e aéreo.
Já não tinha sono ou fome. Era um custo fazer com que ele dormisse.
Esse garoto tá estranho pensou ela e com razão. Vou leva-lo ao médico.Mas não foi preciso.
Um dia. Dois. No terceiro ele não aguentou. Esperou uma distração da mãe e saiu.Bateu na casa da frente e esperou.
-Pois não? Oh, um garotinho, como se chama filho?
-Miguel. Vim ver a Laura.
-Quem é Laura?
-Ela mora aí com a senhora. É minha namorada.
-Não pode ser. Não tem nenhuma Laura aqui.
Dizendo isso o menino agoniado que estava fez menção de entrar na casa.
-Espere. Disse Vivalda. Acho que sei o que se passa. Entre e venha ver.

E tal não foi sua decepção ao ver a sua amada ali diante de si. Não uma menina como imaginara. Mas uma boneca.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Dia" D"

Era um sábado e talvez por isso Márcio acordasse tarde aquela manhã.
-Márcio! Isso são horas de um pai de família está dormindo? Deixe de preguiça e levante.
Márcio esfregou os olhos, estava ainda muito sonolento. Que horas seriam?
-Levante homem.
Rafaela já estava irritada com toda aquela preguiça e lentidão do marido.
-Sabe homem? Você não presta pra nada. Nem pra trazer comida pra casa. Eu devia te vender no bazar da igreja. Será que alguma doida iria te querer? Ria sozinha. Acho que a doida era ela.
Márcio levantou-se, mecanicamente vestiu-se e banhou-se. Não comeu, pois a mulher o seguia em todos cantos da casa, fosse no banheiro ou no quarto aquele homem não tinha paz.
Olhou bem pra esposa...Estavam casados há mais de 6 anos. E era sempre aquilo. Sempre uma ladainha chata como aquela. Não havia um momento de carinho ou amor. A mulher reclamava até no sexo, será que ele era ruim de cama? Não. A negativa surgiu imediatamente em sua cabeça, o caso não era aquele, não era desse tipo de coisa que ela reclamava na hora “h” e sim de outras tantas coisinhas que haviam ocorrido no dia. Foram anos somando problemas, reclamações e grosserias até olhar bem pra ela como estava olhando agora e ver que não a amava, pra bem dizer a verdade nem saberia dizer o por que haviam casado.
Ele juntou coragem e disse:
-Acabou Rafaela. Esse é o fim dos seis anos juntos.

A mulher parecia verdadeiramente aliviada. Acho que era isso que ela esperava durante esses anos. Enfim ele, um palerma, segundo opinião dela havia tomado uma atitude. Foi naquele momento que ela passou a amá-lo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Quem dá aos pobres empresta a Deus"

-Pra onde vamos hoje?
-Ih, o dia tá tão morgado. Melhor ficar em casa.
-Então o dia não está morgado. Corrigiu a outra. Morgada está você.
Riram ambas. Mas o riso de Ana estava triste.
-O que há Ana? Disse a amiga.
-Desde que a empresa em que eu trabalhava fechou não consegui outro emprego. A situação lá em casa está difícil.
-É aqui em casa as coisas também estão difíceis. Mentiu a outra. Baixou os olhos fingindo uma lágrima. Ou talvez fosse a vergonha batendo-lhe a porta depois da falseta?
O caso é que não tardou em despedir a outra. Contudo algumas semanas depois podemos encontrá-las mais uma vez juntas.
Ana abraçou a amiga com sinceridade e a consolou, esta se acolheu em seus braços, pois sofria terrivelmente. Havia alguns dias a sua mãe acabara de morrer num acidente de carro.
Júlia parecia mais confortada depois das palavras de consolo de Ana. Ainda permaneceram um pouco juntas.
-Quer vir comigo a igreja? Disse Júlia.
-Vamos sim. Foram juntas, mas juntas não voltaram.
Em verdade Júlia procurava a igreja não por crer em realmente em Deus, mas como que para aliviar a própria consciência. Ao ver Ana ir embora Júlia lembrou-se por um momento que a outra havia perdido o emprego, tinha filhos e era viúva.
-Júlia! Disse alguém ao vê-la ali parada na entrada da igreja.
 Era uma jovem que a convidava para um aniversário que seria nos próximos dias e diante daquele convite festivo ela esqueceu todo o resto, inclusive que sofria. E não só ela. A amiga também deveria estar sofrendo. Mas depois se ocuparia disso. Era necessário comprar o presente da aniversariante, ver a melhor roupa, ah ainda tinha os sapatos. Quase não os tinha.
Do outro lado da cidade havia uma mulher que sentia fome assim como os seus filhos. Estava cansada, pois tinha naquele dia andado muito para ver sua amiga. Ana não tinha religião, mas acreditava fervorosamente que uma força de superioridade angélica havia criado todo o universo e os homens que nele habitavam.
Júlia deve está sofrendo muito. Pensava consigo mesma. Mal sabia ela que a amiga havia encontrado divertimentos capazes de fazê-la esquecer não só suas dores mas também as do próximo.
No dia da referida festa estava lá a nossa Júlia, bonita e muito bem vestida. Mas nenhum dos convidados veio apertar-lhe a mão ou saber se sofria. A maioria deles estranhava ela estar ali depois de tão pouco tempo da morte de mãe, mas que tinham com isso? Pensava ela, que acreditava merecer também o seu quinhão de felicidade, eu particularmente não a desminto, mas esquecia-se ela de coisas mais importantes.
Em meio aquela multidão convulsa ela estava só. Embora ostentasse felicidade ela verdadeiramente não a tinha. Fechou os olhos e viu Ana a sua frente, Ana e seus filhos passando fome. Por que não ajudar aquela tão boa amiga que a havia consolado em sua tristeza?
-Já está indo embora Júlia? Era o Almeida. Um homem de seus 35 anos. Muito bonito.
Está sentiu horror ao olhá-lo. Era a primeira vez que sentia aquilo ao olhar alguém. Um medo indefinido. Desvencilhou-se de suas mãos que a seguravam pelo braço e saiu.
-Júlia. Gritou ele ainda uma vez com a intenção de atraí-la de volta.
Ela já não o ouviu. Longe dali mas bem  perto de seu coração havia alguém que ela precisava ver, saciar a fome, mas não só de comida, de compaixão e amor humanos; pois “quem dá aos pobres empresta a Deus”.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Zuza


(Imagem retirada do blog: Fazendo a nossa festa colorir)

-Filó, cadê o Zuza?
-Deve está lá fora brincando.
-O céu tá todo armado. Acho que vai chover. A voz era rouca como se cada palavra tivesse saído com muito esforço das entranhas daquele homem. Roberto era considerado entre os seus um bom pai de família; nunca havia deixado faltar nada para a mulher ou para os filhos: Zuza e Raquel. Em verdade ele era mesmo um bom pai e nutria verdadeira adoração pelo Zuza, via naquele garoto a continuação de si mesmo, uma maneira de perpetuar-se através do tempo, faria dele um grande homem: fiel a seus deveres e compromissos. Além de pai e esposo Roberto era um brasileiro fanático pela pátria de chuteiras, destes que já não há.
-Zuza, oh Zuza! Entre meu filho. Você não tá vendo que vai chover?
-Já vou mãe. Pera mais um pouco.
-Entra agora.
-Mas mãe o jogo tá...
-Nem mais nem meio mais Zuza. Dê tchau aos seus colegas e entre logo. O jogo pode ficar pra outra hora.
-Poxa mãe! Logo hoje que eu ia passar o Zinho na artilharia do time?
Filó fazia-se de surda. Que negócio é esse de artilheiro de time? Filho seu tem é que estudar, por a cara no livro: ser um grande homem.
-E aí filhão? Como foi o jogo?
A partir daí foi um converseiro sem fim sobre a pelada daquele dia, ou sobre o baba como se fala aqui na Bahia. Mas antes de baianos eram brasileiros, adoravam futebol, aliás: os homens da casa gostavam, as mulheres preferiam a novela.
-Roberto, deixa o menino em paz. Para de encher a cabeça dele com isso de ser jogador de futebol, você é um alienado. Não se vive de futebol.
-Como não se vive? Neymar, Fred, Rivaldo e outros e outros mais por aí vivem de que se não é de futebol?
-Estou falando de vida normal.
-E que há de anormal nisso?
-Nosso filho tem é que estudar, ele precisa é se mirar mais no exemplo da irmã. Já viu como a Raquel é estudiosa? Vai ser veterinária, ela já te disse isso? Não né? Você nem olha pra ela. Vive pro Zuza e pra esse seu sonho idiota de fazer dele um jogador.
-Isso não é verdade. Sou um bom pai e você sabe disso.Só que a Raquel não precisa de mim como o Zuza.
-Deixa eu adivinhar! Ele precisa dos conselhos de um jogador de futebol frustrado que nem você? Sabe qual é o teu problema? Você queria ter nascido um Roberto Dinamite, mas fazer o quê? Ele nasceu antes de você, paciência meu bem. Disse Filó irônica enquanto batia no ombro do esposo.
-Quanta bobagem!
A discussão ia longe. Havia ultrapassado o jornal. Já estava na novela das 9 e nada. Até que o Zuza aproximou-se e disse:
-Sabe pai? Não quero mais ser jogador de futebol. Quero fazer novela que nem aquele ator. Ser protagonista ao lado de uma atriz bonita que nem aquela, olha lá.
Roberto estava decepcionado com o Zuza. Filó porém exultava. Havia vencido o marido.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

Natércia

Hoje Natércia deu seu último mergulho naquele mar,pela última vez pisou a areia branquinha e fina que teimava em se meter entre os seus dedos.Deitou-se na praia.Ficou olhando as nuvens de dentro do seu chapéu vazado.Uma proteção e um esconderijo.
Em poucos dias mudou-se pro interior do estado.Pessoas diferentes,hábitos também.Sotaques carregados,acabou viciando naquilo rapidinho;falava arrastado agora.As roupas eram mais simples,os cabelos menos emperiquitados. Não estava menos bonita.Era apenas mais natural.Aquele ar doce e quente da nova terra penetrou todos os seus poros e ondeava levemente a barra do vestido verde que usava aquela tarde.
-Natércia!Alguém chamava lá longe...Tão distante.Quase inaudível.
Chamavam-na repetidas vezes.O som daquela voz era profundo e trazia lembranças comoventes.
Virou-se.Estava tão diferente.Quando nossos olhos se cruzaram os mortos ressuscitaram no cemitério,e a louça antiga voltou a ser bela.
-Natércia!Não cansava de chamar-me a todo instante.Havia me seguido até ali.
Mirou-me  muito seriamente.

domingo, 21 de abril de 2013

Mais uma Queda




Juliana estava de joelhos aos pés do altar. Orava. De sua parte também compenetrado, porém em questões mundanas o padre a olhava. Aquela mulher era uma bela ovelha: tão entregue, absorta, completamente apaixonada pelas questões do céu. Os cabelos caíam-lhe abundantemente pelos ombros cobertos, ela era todo recato: físico e espiritual. Seus lábios carnudos, cheios de amor... Eram um convite.
-Está no horário de sua confissão. Vamos filha?
Não muito longe dali ouvia-se:
-Aleluia senhor. Deus seja louvado e para sempre glorificado. Em nome do senhor.
-Amém. Disseram outras ovelhas. Estas evangélicas.
Após o culto e coleta das ofertas da noite. O pastor fechou-se em seus aposentos particulares contando as somas. Separando apenas uma ninharia para as obras da igreja. Os pobres... Pra que os pobres mesmo? Ah, par dar o óbolo da viúva, que dentro de sua imensa pobreza ainda assim reuniu condições para ajudar o seu próximo. Oh, pobre viúva! Pobres homens e mulheres que ao invés de encontrarem um pastor de almas encontraram um grande banqueiro.
O céu crispou-se de nuvens negras, Lúcifer caiu dos céus arrastando com ele um terço dos anjos. Em meio aquela escuridão rajadas de fogo cruzavam o horizonte indefinido das almas humanas, a queimar, a arder em suas paixões mundanas.
-Senhor! Senhor. Piedade para as almas humanas.
O altar católico ruiu. A imagem de Cristo chorou sangue diante da profanação que aquele padre orquestrou contra e com Juliana.
-Sua pele é tão macia. Cheirosa.
-O senhor não deveria fazer isso. É contra as leis de Deus e da igreja.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Um Sol Nasce.Outro Morre.


-Um minuto, por favor.Era meu amigo Vinícius ao telefone e eu queria me certificar que a nossa conversa não seria ouvida por ninguém.Foi por isso que dispensei todos os presentes, que naquele instante se compunham de um séquito de primos e um gato.Sim, até do gato queria estar livre, pra falar das coisas mais banais  ou das mais importantes sem ser escutado.
-Pois, é meu caro.É exatamente o que eu te disse: minha mulher vai ter um filho, está grávida.Não é ótima a notícia?
-É, sim.Disse eu.
-Que é isso rapaz, você não tá alegre?
Quem nos ouvisse a conversa talvez não pudesse crer que éramos ambos apenas amigos, falando a verdade éramos mais que isso, éramos irmãos.
-Pra que fique decretado o quanto estou feliz, peço a você e a sua esposa que façam da criança que virá meu afilhado, irei batizá-lo.
-Pois considere acertado desde já.Esperamos você em nossa casa amanhã pra almoçar, vamos comemorar com mesa farta a vinda do nosso primeiro filho.
Sozinho adentrei aquele lar, no qual estavam reunidos amigos de minha verdadeira estima.Enquanto conversávamos animadamente esperamos por Laura.Era a aparição mais aguardada daquela manhã.
-Ela está no banho.Daqui a pouco estará entre nós.
-Garanto que estamos todos ansiosos pra vê-la e abraçá-la por essa tão grande boa nova.
Os presentes assentiram com a cabeça concordando.Da cozinha vinham cheiros convidativos ao paladar. Eu estava faminto.
Quando dei por mim lá estava Laura diante de todos nós, cercada de elogios, paparicada por todos, como não poderia deixar de ser.
-Mana, dê um abraço.Disse eu estendendo-lhe os braços.
Ela retribuiu amorosamente,naquele instante senti o quanto ela estava feliz com a nossa presença pra que compartilhássemos da sua felicidade.
Enquanto almoçávamos eu não me pude furtar de observá-la, não perdia um só movimento; meus olhos pulavam dela pra Vinícius, pensava no quanto eram felizes;  e como eu seria também feliz se pudesse ter filhos, se tivesse muito tempo de vida.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Pecado Original


Apanhou a flor, apanhou o amor que ele lhe dera gota por gota, era pouco. Gostava de banhar-se em cascatas de cachoeiras grandiosas, beijada e amada por peixes, por todos os deuses. Espiada pela Lua, adorada pelos Sóis. Era o canto mais suave e mais impetuoso da natureza: uma mulher, a minha mulher, artigo definido e possuído por mim.
Morreria pra satisfazer cada um dos seus caprichos. Tudo bem não sou sagitariano, nem tão pouco sou regido por qualquer signo zodiacal.
Chegarão amanhã minha arqueóloga e seu “pupilo fóssil’’.
Desembarcaram ambos, trazia-o preso a sua mão pequenina e macia aquilo que alguns ousariam chamar de mão.
-Meu Deus!Será que precisava tanto empenho?
-É meu trabalho.
-Trazê-lo pra morar conosco faz parte do seu trabalho também?
Deu de ombros deixando-o resmungar sozinho, observando aquela cena dantesca, era um delírio só poderia ser; alguma ingestão acidental talvez... O que poderia tê-lo envenenado?
-Não seja criança e trate de acordar desses seus devaneios. Como você fantasia; sabe qualquer um diria que sou sua mãe. Comporte-se como marido hein?!
-Essa é boa!E o que tenho sido então senão um pra você?
Já estava correndo atrás dos dois; a esposa e o ilustre acompanhante andavam rápido em demasia.
Gostaria de descrevê-lo. Não encontro termos apropriados em linguagem humana. Direi tão somente que é um resquício da primeira leva hominal, se é que é um termo apropriado.
Havia encontrado o Adão da ciência; seria altamente condecorada, teria as maiores honrarias e privilégios da Terra; seu séquito de seguidores seria ainda maior. Viu-se cortejada pelo Sol em todo esplendor e arrogância, eram iguais.
Aquele ser assustado e assustador observava-a trocar as vestes intrigado. Estava tonto da viagem, a memória razoavelmente afetada pelo tempo. Mas sabia plenamente com que tipo de gente estava lidando ,afinal, eram da mesma espécie, graças a esforços de seres como eles tinham progredido e civilizado. O raciocínio era parco, mas o instinto não o trairia.
O Novo velho homem passava por testes clínicos periodicamente, testes de reflexo, acuidade visual, e primordialmente todos as investigações relativas a mente e sua funcionalidade;foi confirmado que o crânio humano expandira-se com o passar dos séculos, entre outras coisas.Eram minuciosos e frios,extremamente detalhistas em tudo quanto pudesse servi-los;tinham em seu poder um espécime único, a coisa mais surpreendente da natureza humana sobre todos os aspectos,questionava-se sua moralidade,seus modos,sua existência paralela ;embora mostrasse claros resquícios de inteligência parecia alheio ao circundante,era primitivo.
-Eureca!Eureca!O eco das próprias palavras ainda fazia ruídos dentro de si.
-O que descobriu?
-Parece um homem congelado, e digo mais: aparentemente em ótimo estado de conservação, mirava-o com interesse, era repugnante, mas tinha olhos muito vivos pra alguém que estivesse congelado há tanto tempo, aquilo atraiu sua atenção, seu desejo de desvendá-lo. Quando se puseram a desvencilhar o objeto em estudo do gelo, ele verdadeiramente eclodiu,nasceu, nasceu da forma mais inusitada. Não pronunciava palavras a principio entendíveis, emitia somente sons guturais, aos poucos a comunicação foi se estabelecendo entre ele e membros da equipe, principalmente com sua ilustre descobridora; uma mulher diabolicamente divina, alguns suprimiriam o artigo divino...
Ao financiador da expedição:
-Quanto me daria por um “ser” como esse?
-Ah!Querida pense no bem da comunidade cientifica.
Um ranger leve na porcelana dos dentes quase os trincou por completo, um jeito nos cabelos, levanta se aproximando dele.
-Precisarei de você meu amor.
-Como sempre,não é?
-Tem valido a pena, ou não?!   
-Não sei.
-Pois te digo!Depois que assumi o comando das expedições que financia, seus lucros empresariais são cada vez mais vultosos, seu dinheiro é aliado da minha competência.
-Sempre modesta!Minha parceira perfeita, em tudo!
-Acho que eu não seria tão categórica quanto tu és nessas afirmações...
-Remorsos das explorações clandestinas?
-Jamais, falava apenas doutras coisas. Agora preciso ir meu embarque é pra logo, ou estou lá ou fico aqui nesses confins.
-Fique comigo!
-Por que confundir sempre as coisas?
-Ofendida Madona?
-Sim ,por certo. Deixe-me por obséquio.
-Achei que até alguns instantes era seu amor, como sois frívola.
-Tenho senso de oportunidade só isso.
-Quando enfim dormirás nos meus braços?
-Adeus!Espero sua contribuição na conta de sempre, afinal o que nos une são apenas negócios, escusos, mas ainda assim negócios.
Viu as harmonias do talhe se esvaindo por entre as espirais das escadas, adorava contemplá-la nesse estado de mulher ferida e distante,um dia venceria aquele orgulho.
Em casa...
-E então Carolina como foi o seu dia com o nosso hóspede?Depositou em seus lábios róseos o  beijo costumeiro: -Amo você querida!
Estava alheia aquela afetuosidade, lembrava-se doutras coisas mais importantes, não poderia, não agora, prescindir de tino e agilidade de movimentos, uma raposa perfeita, ardente de desejos não consumados e inconfessáveis.
Olhou-o com ternura, tinha pena dele, tão apaixonado; seguiria até o fim naquela farsa, fingiria amor e “ais” repassados de saudade quando tinha apenas pena. Pena de quê?Não sabia ao certo, talvez fosse algum grito de consciência rouca. O fato era: um marido fazia-se necessário, sua postura de mulher honesta, bem casada, reputação inatacável por todos os aspectos precisaria ser mantida a qualquer custo e nada melhor do que um casamento como aquele com um homem de virtudes inquestionáveis; suas lavagens de dinheiro junto ao financiador jamais seriam descobertas. Quanto a amantes?Não teria estômago pra tanto, era preferível viver em castidade espiritual por que física já não era possível com um esposo tão devotado quanto o que possuía.
Olhos rasos d’água:
-Senti tantas saudades de ti querido o dia foi tedioso, sabes que ainda não tenho feito muitos progressos com ele. Enlaçou o seu pescoço com carinho, sussurrou baixinho no ouvido dele “estou cansada, poderia me levar pra cama?”, e aquilo era a senha pra tudo quanto ela sonhara conseguir dele, sua fragilidade encantava-o embora não fosse genuína.
Ele era puro e bom, via sua deusa, sua senhora, ou dona como queira, quiçá mestra; esse sim é o termo mais apropriado, como uma sílfide, dotada de qualidades admiráveis,adorava dedicar-lhe predicativos sempre ostentados com verdadeiro frenesi por sua rainha.Comandava cada um dos súditos de forma especial,única, como ela mesma.
“Todos querem sentir-se amados, indispensáveis ,e é importante cultivar neles a vaidade, sufocar o que poderia afastá-los de sua nefasta influência.” Seria eu tão má assim?Quisera somente o meu quinhão de felicidade terrena. Não matara, não causara intrigas, respeitava pai e mãe, guardava o sábado indo as missas com freqüência usual, não cobiçava o homem alheio,enfim ,seguia razoavelmente bem o decálogo:seu mais alto pecado era roubar.Fazia-o sem muitos escrúpulos.Gostava do poder e dos seus meandros, utilizava-o pra chegar onde queria,não tinha lá muitos limites sua ambição.Venderia os pais?Os dela não, mas os seus sim leitor, portanto cuidado!Mantenha distância calculada.
Dormia com a cabeça repousada no seu seio alvo e palpitante. Gostava de cismar sobre aquele homem e sobre si mesma. Dentro do seu peito havia um casebre que destinara a ele, era a porção de amor que lhe cabia, sim, naquele instante ao vê-lo dormir consigo tão entregue e vulnerável, amou-o deveras, não tanto quanto ele merecia, mas já era algo: um casebre. Contudo isso não foi suficiente pra impedi-la de leiloar um ser humano em praça pública, tal qual escravo; o ser mais antigo da humanidade encontra-se exposto nas galerias mais famosas do mundo, arrebatado por incalculável fortuna: ganhara-o de presente de um admirador secreto,possuía título de propriedade sobre o animal, podia vendê-lo ou explorá-lo quanto quisesse.Seu nome permaneceu incógnito,jamais pronunciado em transações, o esposo esse um coitado, um infeliz, jamais suspeitaria de tal primor social e conjugal.
Desfilava seu amor próprio numa das galerias mais famosas do mundo. Agredida e morta pelo selvagem; tinha afinal o orgulho vencido, não por um homem como o de outrora, porém por um animal tão primitivo quanto ela. A eterna revolta da criatura!
Seus instintos de aço haviam sido preservados sobre uma espessa camada de gelo por séculos, milênios a fio, impossível o Adão histórico ser enganado por uma Eva qualquer, tudo nela exalava os mais torpes sentimentos, o seu parco amor medrava, sufocava-se no lamaçal que era sua alma.
O perigoso ser sofreu um processo de recongelamento, a misérrima criatura viu na arqueóloga os instintos mais baixos, compartilhava todos eles numa época tão remota, tão presente e vanguardista.
Um dia o homem adâmico abriu as pupilas ressecadas, diante de si havia uma rosa desabrochando em pétalas douradas, douradas de amor.