sexta-feira, 28 de junho de 2013

Natércia

Hoje Natércia deu seu último mergulho naquele mar,pela última vez pisou a areia branquinha e fina que teimava em se meter entre os seus dedos.Deitou-se na praia.Ficou olhando as nuvens de dentro do seu chapéu vazado.Uma proteção e um esconderijo.
Em poucos dias mudou-se pro interior do estado.Pessoas diferentes,hábitos também.Sotaques carregados,acabou viciando naquilo rapidinho;falava arrastado agora.As roupas eram mais simples,os cabelos menos emperiquitados. Não estava menos bonita.Era apenas mais natural.Aquele ar doce e quente da nova terra penetrou todos os seus poros e ondeava levemente a barra do vestido verde que usava aquela tarde.
-Natércia!Alguém chamava lá longe...Tão distante.Quase inaudível.
Chamavam-na repetidas vezes.O som daquela voz era profundo e trazia lembranças comoventes.
Virou-se.Estava tão diferente.Quando nossos olhos se cruzaram os mortos ressuscitaram no cemitério,e a louça antiga voltou a ser bela.
-Natércia!Não cansava de chamar-me a todo instante.Havia me seguido até ali.
Mirou-me  muito seriamente.

-Olhe nos meus olhos.Não tinha cara de alguém que estivesse pedindo e sim ordenando.Visto daquela maneira imponente era ainda mais belo,tinha um porte magnifico.
Sentia medo e fascinação por aquela criatura.
-Não entendo a razão de você ter mudado de cidade.
-Foi preciso.
-Fez isso tantas vezes.Saiu do litoral pro interior,do interior pro litoral;pra tantas paragens por vezes sem conta.Era mesmo necessário?
-Acreditei..Nesse instante a criatura interrompeu seu raciocínio.
-Pelo visto desistiu de acreditar.
Ela não respondeu.Apenas baixou os olhos, enquanto amassava a ponta do vestido.
-Encontrarei você sempre, em qualquer lugar que estejas.
-O meu perfume te persegue e te causa insônia?
-Não seja ridícula!
-Sou seu passado.Seu presente e seu futuro.Disse completando a frase anterior.
-Quanta modéstia!
-Sou a sua vida.Neste instante abriu uma tela diante dela,mostrando os principais fatos.
A moça riu,chorou,se arrependeu de muitas coisas,de outras...Bem não dependia dela. Essas doíam bem mais.
O ser belo abraçou-a com carinho.Ela se entregou resignada em seus braços.
Eram um só.Uma só vida.Cobrando a si mesma pelos passos trilhados no caminho.


Um comentário:

  1. Muito bom o conto, Cecil, achei que a criatura seria a morte, rsrs.

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